A cena é familiar. Um banco de investimento publica relatório reiterando recomendação de compra para a T-Mobile, o papel reage, os analistas de plantão repetem a ladainha sobre sinergia, escala, margem operacional e fluxo de caixa livre. Tudo muito técnico, tudo muito respeitável, tudo muito deslocado do que realmente está em jogo. Porque quando se fala em fusão no setor de telecomunicações americano em 2026, não se está falando de capitalismo, não se está falando de competição, não se está falando nem mesmo de eficiência. Está se falando de permissão. E permissão tem preço, tem padrinho e tem fila.

Olha, quem acompanha o setor há mais de uma década sabe que a T-Mobile de hoje é filha direta de uma decisão política, não de uma vitória de mercado. Foi o Departamento de Justiça americano que autorizou a fusão com a Sprint em 2020 depois de anos de negociação, concessões, alienação de ativos e promessas de construir uma quarta operadora mágica que nunca se materializou de forma relevante. Aquela operação consolidou o oligopólio de três, matou a ilusão da concorrência real e entregou a clientes americanos exatamente o que os reguladores juraram que não entregariam. Agora, seis anos depois, o mesmo roteiro ensaia nova temporada. E a casa de análise, prontamente, reitera compra.

Me diz uma coisa, que tipo de análise financeira precifica a probabilidade de um procurador-geral ligar para um CEO e dizer sim ou não? Nenhuma, porque não existe modelo quantitativo para capturar o que acontece em jantares de Georgetown. O valor que a TD Cowen enxerga no papel não vem da capacidade competitiva da empresa de ganhar clientes com preço melhor, rede melhor ou serviço melhor. Vem da expectativa plausível de que a próxima rodada de consolidação será aprovada, que ativos de cabo serão digeridos, que espectro será acumulado, que rivais menores serão eliminados por via burocrática. O que se vê é o relatório bonito com preço-alvo. O que não se vê é o consumidor americano pagando a fatura de celular mais cara da próxima década.

E aqui entra a peça central que ninguém da imprensa financeira gosta de tocar. Quando uma empresa depende estruturalmente de aprovação regulatória para crescer, ela deixou de ser uma empresa privada no sentido próprio do termo. Virou uma concessionária que precisa agradar os donos do carimbo. E os donos do carimbo mudam conforme muda a administração, conforme mudam os interesses eleitorais, conforme mudam os lobistas que conseguem audiência. A T-Mobile mantém um dos exércitos de advogados e ex-funcionários públicos mais caros de Washington não por esporte, mantém porque é isso que produz retorno sobre o capital investido no setor. Siga o dinheiro dos honorários e você encontra a verdadeira estratégia corporativa.

O mais irônico é a solenidade com que o mercado trata tudo isso. Relatórios citam expansão de EBITDA como se a métrica fosse resultado de gestão brilhante, quando é, em grande parte, resultado de concorrência suprimida. Gente que jamais aceitaria o argumento de que uma padaria num monopólio municipal é prova de excelência culinária aplaude sem pestanejar a margem operacional de um oligopólio protegido. É o capitalismo de compadrio fantasiado de capitalismo, é a pilhagem legalizada dos bolsos do consumidor vestida de case de Harvard Business Review, e a casa de análise chama de oportunidade de investimento. Talvez seja mesmo, do ponto de vista estritamente financeiro. Comprar ação de empresa que joga com as cartas marcadas pela própria banca é historicamente um negócio espetacular, desde que a banca continue sua amiga.

Resta a pergunta que nenhum analista sell side vai fazer em teleconferência. Se o argumento para comprar o papel é a probabilidade de fusão ser aprovada, e a fusão existir reduz competição, e competição reduzida eleva preços ao consumidor, o que exatamente está sendo recompensado pelo mercado? A resposta, quando se tem coragem de encará-la, é desconfortável. Está sendo recompensada a capacidade de influenciar o Estado. E uma economia que recompensa sistematicamente essa capacidade, em vez da capacidade de servir melhor o cliente, já não é uma economia de mercado. É outra coisa, com outro nome, e o nome não é bonito.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.