O Nasdaq 100 voltou a liderar a festa, as gigantes de tecnologia empurram os índices para cima, e o noticiário financeiro trata o fenômeno como se fosse vitória da engenhosidade americana sobre a turbulência de março. Olha, é bonito de ver, mas convém perguntar: de onde vem esse dinheiro todo que está comprando ações a múltiplos que fariam corar qualquer analista com memória mais longa que um ciclo eleitoral? Porque a realidade é que nenhuma alta dessa magnitude acontece sem combustível, e o combustível do mercado americano das últimas duas décadas tem um nome só, e esse nome sai da mesma impressora que destrói o poder de compra do aposentado no Kansas.
Quer dizer, quando o banco central americano pisca para o mercado, o mercado interpreta como licença para correr risco, e o risco vira retorno porque a liquidez é infinita até o dia em que deixa de ser. Os bull runs das techs não são, como a imprensa financeira gosta de fingir, fruto exclusivo da genialidade dos engenheiros do Vale do Silício. São, em boa medida, o reflexo contábil de uma economia que ficou viciada em juros artificialmente baixos, em crédito barato, em recompra de ações financiada por dívida corporativa que só faz sentido num mundo de dinheiro quase gratuito. Retire o subsídio monetário e metade dessas cotações some como fumaça.
Me diz uma coisa: por que as sete maiores empresas da bolsa americana respondem por uma fatia da capitalização que nem no auge da bolha das pontocom se viu? Não é porque inventaram a cura do câncer. É porque o dinheiro institucional, espremido entre renda fixa que não rende e inflação que corrói, não tem para onde correr senão para os mesmos seis ou sete bilhetes azuis que todo mundo compra. É o rebanho comprando o rebanho, e cada novo entrante valida a aposta do anterior, até que alguém pisca e a porta de saída se revela estreita demais para todos.
E tem a parte que ninguém olha, que é a outra ponta da mesma corda. Enquanto a manada comemora a recuperação do Nasdaq, o cidadão comum vê a conta do supermercado subir, o aluguel apertar, o sonho da casa própria virar piada de mau gosto. O mesmo regime monetário que infla o portfólio do gestor de Manhattan é o que esvazia a carteira do operário de Ohio. A bolsa em máxima histórica convive com uma classe média em mínima histórica de patrimônio real, e isso não é coincidência, é desenho. Inflação de ativos para quem já tem ativos, inflação de preços para quem só tem salário. Simples assim.
A história dessa brincadeira já foi escrita várias vezes, com nomes diferentes e figurinos distintos, mas sempre com o mesmo terceiro ato. Boom alimentado por crédito artificial, euforia que contagia até o motorista de Uber dando dica de ação, correção feia, pacote de resgate, socialização do prejuízo, privatização do lucro, e no fim o contribuinte paga a festa que não foi convidado a frequentar. Quem acha que dessa vez é diferente está apostando contra a natureza humana e contra a aritmética, o que costuma ser mau negócio nas duas frentes.
O recado, para quem tem olhos de ver, é simples. Celebrar a alta das techs como se fosse prova da saúde do capitalismo é confundir o sintoma da doença monetária com vigor econômico. Capitalismo de verdade tem falência, tem liquidação, tem o preço encontrando seu nível no confronto entre oferta real e demanda real. O que temos hoje é outra coisa, é um arranjo onde o preço dos ativos foi divorciado da realidade por decreto de comitê, e toda separação desse tipo termina em reconciliação violenta. A festa está boa, o open bar está aberto, mas alguém vai pagar a conta, e geralmente é quem nunca bebeu.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.