A cena beira o cômico se não fosse trágica. Wall Street suspende a respiração, analistas reescrevem planilhas, fundos soberanos rezam, e tudo isso porque uma empresa que fabrica processadores gráficos vai divulgar quanto faturou nos últimos três meses. A Nvidia virou o oráculo de silício do nosso tempo, e os hyperscalers, esses gigantes que constroem os data centers da inteligência artificial, viraram os faraós modernos erguendo pirâmides de GPU com o dinheiro de fundos de pensão alheios. Quando o mercado inteiro depende do humor trimestral de meia dúzia de empresas, não estamos diante de um setor saudável; estamos diante de uma bolha que aprendeu a sorrir para a câmera.
A pergunta que repetem nos pregões é se a demanda por IA vai continuar justificando o capex insano dos hyperscalers. Olha, me diz uma coisa: quando foi a última vez que alguém perguntou se a demanda justificava o investimento numa indústria que estava de fato gerando lucro? Ninguém pergunta isso sobre padaria, sobre fábrica de parafuso, sobre quem produz coisa que o consumidor paga voluntariamente. Pergunta-se sobre IA porque, no fundo, todo mundo sabe que boa parte daquele faturamento vem de empresas vendendo chips para outras empresas que ainda não monetizaram nada, financiadas por capital barato que existe porque os bancos centrais inundaram o mundo de liquidez na última década.
O que se vê é a Nvidia entregando números recordes e o Nasdaq comemorando. O que não se vê é o custo de oportunidade de trilhões de dólares sendo desviados para uma única aposta tecnológica, enquanto setores produtivos reais minguam por falta de capital. O que não se vê é a estrutura de juros artificialmente manipulada que permitiu essa orgia de investimento. O que não se vê é que cada dólar queimado em data center de treinamento de modelo é um dólar que não foi para uma fábrica, uma fazenda, uma pequena empresa que produziria coisa que gente compra com o próprio salário.
Siga o dinheiro. Os hyperscalers compram chips da Nvidia. Quem compra serviços dos hyperscalers? Em larga medida, startups de IA financiadas pelos próprios hyperscalers e pelos mesmos fundos de venture capital. É um circuito fechado de capital onde o mesmo dólar gira várias vezes contado como receita em três balanços diferentes. Os economistas honestos da escola que defende moeda sólida já descreveram esse mecanismo há um século: expansão de crédito gera investimento concentrado em setores específicos, que parecem produtivos enquanto o crédito continua fluindo, e revelam-se malinvestiment quando a torneira fecha. A torneira sempre fecha.
Não há nada de errado com inteligência artificial como tecnologia; haverá ganhos reais de produtividade, e os vencedores de verdade vão emergir do entulho. O problema é confundir a tecnologia com a precificação atual dos seus fornecedores. Toda revolução tecnológica genuína veio acompanhada de uma bolha financeira que enriqueceu intermediários e arruinou poupadores ingênuos. Ferrovias no século 19, rádio nos anos 1920, internet em 1999. Os trilhos continuaram lá, o rádio continuou tocando, a internet continuou funcionando, mas os acionistas que compraram no topo viraram pó. Quem está comprando Nvidia a múltiplos absurdos hoje está apostando que desta vez é diferente, frase que custou mais dinheiro na história do que qualquer guerra.
O termômetro do tech não está medindo a saúde do setor, está medindo a febre. E febre alta, prolongada, sempre termina em duas coisas: ou o paciente sua e se recupera com um sistema imunológico mais forte, ou o paciente convulsiona e o médico chega tarde. Wall Street está apostando no primeiro cenário com o dinheiro de quem não foi consultado.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.