Caiu granizo no Sul de Minas, alagou rua, derrubou árvore, e sete mil pessoas ficaram sem energia. A manchete trata o episódio como fenômeno meteorológico, como se a chuva fosse a culpada de tudo. Quer dizer, choveu forte em região serrana no verão brasileiro, um evento tão imprevisível quanto o sol nascer amanhã, e mesmo assim a rede elétrica caiu como castelo de cartas. A notícia mostra o que se vê: o vídeo do morador, o galho na fiação, o telhado arrancado. O que ela não mostra é o que importa, e o que importa quase nunca aparece no boletim da concessionária.
Olha, distribuição de energia no Brasil é um arranjo curioso. A empresa tem área de concessão exclusiva, tarifa garantida por agência reguladora, reajuste anual carimbado, e em troca deveria entregar um serviço minimamente resiliente. É o tipo de contrato que, no mercado livre, ninguém assinaria. Imagine pagar adiantado por um serviço cujo fornecedor não pode ser trocado, cuja qualidade você não negocia e cuja falha gera, no máximo, uma multa simbólica que o próprio regulador acaba diluindo no reajuste do ano seguinte. Pois é exatamente esse o desenho. O consumidor financia a poda mal feita, a rede aérea que ninguém moderniza, o transformador que vive no limite, e ainda agradece quando a luz volta no terceiro dia.
Me diz uma coisa, quantas vezes você já ouviu falar em soterramento de rede em bairro popular brasileiro? Quase nunca. Em condomínio de luxo, sempre. A diferença não é técnica, é política. A concessionária só investe pesado onde a tarifa permite, e a tarifa só permite onde o regulador decide. Como o regulador é capturado pela própria concessionária e pelos políticos que vivem das audiências públicas, o investimento vai para o lugar errado, na hora errada, pelo motivo errado. A consequência é previsível: cidade de interior continua pendurada em poste de madeira tratada, fiação trançada com galho de árvore, e basta um vento mais sério para apagar metade do município.
O detalhe quase cômico é o discurso oficial sempre que isso acontece. Vem o secretário, vem o porta-voz, vem o release falando em mobilização de equipes, em situação atípica, em evento extremo. Atípico coisa nenhuma. Granizo em Minas no verão é tão típico quanto fila no INSS. Extremo é continuar tratando como surpresa aquilo que se repete todo ano, no mesmo lugar, com o mesmo prejuízo. Quando o problema é recorrente e a solução não vem, não é incompetência, é desenho. Alguém está ganhando com a rede frágil, com o conserto emergencial, com a hora extra do funcionário, com a equipe terceirizada chamada às pressas. Siga o dinheiro do conserto e você encontra a explicação de por que a prevenção nunca vinga.
E há o argumento moral, que é o mais sujo. Falam que privatizar piora, que mercado não cuida do pobre, que serviço essencial não pode ser entregue ao lucro. Essa concessionária que apagou o Sul de Minas hoje já é privada, ou semiprivada, dependendo do trecho, operando sob tarifa fixada por agência estatal, em regime de monopólio garantido por lei. Não é mercado. É cartório com fio elétrico. Mercado de verdade teria concorrência na distribuição, teria empresa pequena disputando bairro, teria consumidor cancelando contrato e migrando para o vizinho. Existe em outros países. Aqui, dizem que é impossível, e o impossível dura décadas justamente porque dá lucro garantido para quem está dentro.
O morador de Pouso Alegre, de Itajubá, de Varginha vai dormir hoje no escuro achando que foi a chuva. Foi a chuva que derrubou o poste, sim. Mas o poste estava ali, frágil, mal mantido, exposto, porque um arranjo de décadas decidiu que assim seria. Tempestade passa em uma noite. O monopólio mal feito atravessa governos, ministérios, agências e gerações de consumidores resignados. Quando a próxima granizada vier, e ela virá, vão repetir que foi atípico. A única coisa atípica nessa história é o brasileiro acreditar.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.