O roteiro é tão previsível que já tem cheiro de naftalina. Basta uma escaramuça no Golfo, um navio atingido, um drone abatido, e o barril salta como se tivesse mola. Os futuros de Nova York, que passaram semanas flertando com recordes, amanhecem vermelhos. E o noticiário, pontual como cobrador de aluguel, vem explicar que há "incerteza no fluxo global de energia", como se fluxo global de energia fosse algo que se descobre hoje e não a espinha dorsal de toda a civilização industrial desde que o primeiro poço jorrou na Pensilvânia.
O que ninguém diz, porque dizer estraga a festa, é que essa volatilidade toda não é acidente da natureza. É produto. Produto de décadas de uma arquitetura energética desenhada no tapetão, em que o preço do barril depende menos da geologia e mais do humor de meia dúzia de generais, aiatolás e secretários de Estado. O mercado livre de petróleo é uma ficção educada que se conta nas escolas de economia; a realidade é um cartel negociando com outro cartel sob a tutela armada de um terceiro. Quando essa tutela range, o preço dispara. Simples assim.
E aí vem a parte engraçada, se é que dá para rir. Os mesmos analistas que passaram o ano sermoneando sobre transição energética, sobre abandono dos combustíveis fósseis, sobre o futuro verde e renovável, agora tremem na base quando o barril encosta nos três dígitos. Porque no fundo sabem: a economia real, a que paga salário, produz aço, move caminhão e acende luz, continua rodando a hidrocarboneto. O resto é liturgia para consumo de conferência em Davos. Destruir a oferta doméstica em nome de uma virtude abstrata e depois depender do Estreito de Ormuz para não congelar no inverno é o tipo de sofisticação que só mente muito educada consegue produzir.
Siga o rastro do dinheiro e a coisa fica ainda mais pitoresca. Quem ganha com petróleo a cento e dez? As grandes produtoras, claro, que verão lucro recorde e pagarão dividendo generoso aos mesmos fundos que, na reunião de acionistas, votam moções climáticas. Ganham os intermediários financeiros, que cobram spread em cada contrato futuro renegociado no susto. Ganham os governos exportadores, que encherão os cofres e comprarão mais armamento, alimentando o próximo round da mesma novela. Perde o sujeito que abastece o carro para ir trabalhar, perde a dona de casa no supermercado onde tudo que chega de caminhão fica mais caro, perde a indústria que vê margem evaporar. A conta é socializada com precisão cirúrgica.
Wall Street caindo é apenas o termômetro registrando a febre. Mercado não cria a crise, apenas a precifica com honestidade brutal que irrita quem prefere ilusão. O que o investidor está dizendo, ao vender, é o que qualquer dona de casa intui antes do jornal explicar: guerra é cara, energia escassa é cara, e governo que fabrica inimigos enquanto imprime moeda está cobrando em dobro do mesmo bolso. A queda dos futuros não é pânico irracional, é contabilidade funcionando.
No fim, a lição é a de sempre, e por ser a de sempre quase ninguém aprende. Enquanto o preço da energia depender de decisões tomadas em gabinetes fechados, seja em Teerã, em Washington ou em Brasília, cada solavanco geopolítico continuará chegando como imposto disfarçado na bomba de gasolina. Mercado livre de verdade, com oferta diversificada, produção doméstica robusta e moeda que não derrete, seria o antídoto. Mas antídoto não rende manchete, e manchete é o que move a máquina. O barril sobe, a bolsa cai, e a plateia aplaude achando que assistiu a um acidente.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.