O Ministério da Saúde confirmou que o caso suspeito de hantavírus em paciente vindo da Espanha deu negativo. Fim da história, em tese. Só que o ciclo já tinha rodado inteiro antes do resultado sair: manchete em vermelho, repórter na porta do hospital, especialista de plantão explicando taxa de letalidade de 40%, e aquele rebuliço institucional que sempre antecede pedidos de orçamento extraordinário. O vírus não apareceu, mas a coreografia, sim. E a coreografia, convém lembrar, é o produto principal.
Quem acompanhou os últimos seis anos com algum senso crítico já reconhece o roteiro de cor. Surge um caso suspeito, a imprensa amplifica, a burocracia sanitária ganha protagonismo, e a sociedade é lembrada, de forma sutil, de que sem a tutela permanente desses senhores estaríamos todos mortos. O detalhe é que o resultado negativo nunca recebe a mesma cobertura do alarme inicial. A primeira manchete vai para a capa; a desmentida vai para o rodapé da página oito. É assim que se constrói, gota a gota, a percepção de um mundo em colapso permanente que só a expansão do Estado consegue conter.
Vale olhar para o que não está sendo dito. Cada surto, cada suspeita, cada alerta epidemiológico é convertido em moeda política e orçamentária. Secretarias pedem mais verba, fundações de pesquisa pedem mais convênios, organismos internacionais pedem mais protocolos vinculantes, e laboratórios farmacêuticos descobrem, que coincidência, ter exatamente o produto necessário para o problema do momento. Siga o dinheiro e você encontrará sempre os mesmos endereços. O contribuinte paga duas vezes: na conta direta do imposto e na conta indireta da liberdade que entrega achando que está comprando segurança.
Há um problema mais profundo, porém, que vai além do oportunismo de plantão. Uma população treinada a entrar em pânico diante de cada sopro epidemiológico perde a capacidade de avaliar risco com sobriedade. Vira massa manipulável, infantilizada, dependente de um pai burocrático que decide quando se pode trabalhar, quando se pode viajar, quando se pode visitar a mãe doente. A lógica do estado de exceção sanitário, uma vez normalizada, não recua mais ao patamar anterior. Cada susto deixa um sedimento de regulação, de protocolo, de banco de dados, de aplicativo de rastreamento. O recuo, quando ocorre, é cosmético.
O caso espanhol negativo deveria ser oportunidade de pausa, de honestidade, de revisão metodológica sobre como noticiamos suspeitas que ainda não são fatos. Não será. Amanhã haverá outro caso, outra sigla, outro vírus com nome de animal exótico, e a engrenagem rodará igual. Porque o problema nunca foi o vírus em si; foi a infraestrutura institucional, midiática e financeira que aprendeu a viver dele. Vírus vão e vêm; o aparato fica, cresce, se ramifica, e cobra a conta no fim do mês via folha de pagamento e cesta básica mais cara.
Resta ao cidadão fazer o que sempre lhe coube e que andam tentando fazer ele esquecer: pensar com a própria cabeça, desconfiar do alarme conveniente, exigir prova antes da medida, e lembrar que liberdade entregue em momento de medo dificilmente é devolvida em momento de calma. O paciente está bem, a Espanha segue de pé, o hantavírus continua sendo uma doença rara e localizada, e a histeria, essa sim, segue endêmica e altamente contagiosa nos corredores do poder.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.