O Texas Capital Bancshares chega à temporada de resultados apresentando ao mercado uma daquelas histórias que soam bem no PowerPoint da diretoria e péssimo no extrato do correntista. A tese é singela, quase infantil em sua ousadia, reinventar o banco apertando o parafuso das tarifas e chamar isso de transformação de receita. Analistas aplaudem, investidores torcem, e ninguém pergunta a pergunta óbvia, quem está do outro lado dessa mesa pagando pela festa.
Há uma mágica contábil que se repete em toda instituição financeira de porte médio quando o spread de crédito aperta e a curva de juros deixa de ser amiga. Quando não se consegue ganhar emprestando, parte-se para taxar. Taxa-se manutenção de conta, taxa-se transferência, taxa-se relatório, taxa-se o ar que o cliente respira dentro da agência. O banco sobe o degrau da receita sem subir o degrau do serviço, e chama esse descompasso de eficiência operacional. Olha, eficiência de verdade é quando o fornecedor entrega mais pelo mesmo preço, não quando entrega o mesmo pelo dobro.
O ponto que ninguém coloca no relatório para acionista é que cada dólar de tarifa extraído é um dólar que o cliente deixa de gastar em outro lugar, contratar um funcionário, ampliar um estoque, pagar um fornecedor. A receita que aparece no balanço do banco é a contrapartida invisível de uma pequena empresa que não cresceu, de uma folha que não foi paga, de um projeto adiado. A economia real absorve o custo em silêncio enquanto a economia financeira comemora a margem. Quer dizer, é prosperidade de um lado do balcão e asfixia do outro, e os dois lados estão conectados pela mesma tubulação.
Essa estratégia de crescimento por tarifas só funciona num ambiente em que o cliente não tem para onde correr. E não tem por quê? Porque décadas de regulação bancária americana transformaram o setor financeiro numa confraria blindada, com barreiras de entrada desenhadas sob medida para proteger quem já está dentro. A concorrência que deveria castigar o banco ganancioso foi substituída por um cartel informal patrocinado por reguladores que dormem com o mesmo travesseiro dos regulados. Quando o poder público protege o incumbente, o cidadão vira refém educado.
O mais curioso é o vocabulário. Ninguém diz no relatório que vai onerar o cliente, diz que vai otimizar a estrutura de receita. Ninguém admite que aumentou tarifa, admite que reprecificou o portfólio de serviços. A linguagem técnica serve para o mesmo que serviu a linguagem da teologia medieval, embrulhar em latim aquilo que em vernáculo soaria escandaloso. Troque três palavras de consultoria por três palavras de português e o resultado trimestral vira confissão.
No fim do trimestre, o lucro aparece, a ação sobe um pouco, e executivos recebem bônus atrelados a métricas que eles mesmos ajudaram a escolher. É uma receita extraída, não gerada. É um valor transferido, não criado. E a diferença entre transferir e criar é a diferença entre uma civilização que prospera e uma que apenas redistribui até não sobrar nada para redistribuir. Banco que cresce à custa do cliente cresce até o cliente descobrir que a porta da frente também é porta de saída.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.