Trinta e oito milhões de dólares trocando de mãos por um hotel em Kuala Lumpur, e o noticiário econômico trata o fato como se fosse novidade meteorológica. Empresa compra ativo, ativo muda de dono, comunicado ao mercado, próxima manchete. Quer dizer, nenhuma curiosidade sobre o que realmente está acontecendo por trás do papel timbrado. Toda aquisição corporativa desse porte é, antes de qualquer coisa, um retrato em miniatura do estado do crédito mundial, e o retrato que essa operação revela merece ser olhado com lupa, não com bocejo.
Olha, hotelaria em capital asiática emergente não é negócio que se compra com lucro acumulado de operação madura. Compra-se com alavancagem, com linha de crédito multilateral, com instrumento financeiro estruturado em jurisdição amigável, com participação de fundo soberano disfarçado de investidor institucional. A pergunta correta nunca é quanto custou, é quem financiou e a que custo. Trinta e oito milhões de dólares hoje, com juros artificialmente comprimidos por bancos centrais que há quinze anos brincam de alquimista, não significam o mesmo que significariam num mundo de taxa de juros honesta. Significam dinheiro barato que está procurando onde se esconder antes da próxima correção.
E por que Kuala Lumpur, precisamente. A Malásia é jurisdição que historicamente oferece incentivos fiscais generosos para investimento estrangeiro em turismo, com isenções que se estendem por décadas, repatriação facilitada de dividendos e regime cambial que, quando convém ao governo local, vira pedra no sapato do investidor que quer sair. Quem entra nesse tipo de mercado raramente está apostando no hóspede que vai dormir no quarto. Está apostando no diferencial regulatório, na arbitragem tributária, no fato de que o mesmo ativo custa o dobro num país sério e rende metade. É a velha história: o capital foge de onde é mais produtivo para onde é mais protegido, e essa fuga, multiplicada por milhares de operações, é o que distorce a alocação global de recursos a ponto de ninguém mais saber o que vale o quê.
Me diz uma coisa, quantos hotéis foram construídos na última década no sudeste asiático com base em projeções de demanda que ninguém auditou, financiados por crédito que ninguém precificou corretamente, vendidos e revendidos entre operadores que ninguém fiscalizou. A bolha imobiliária asiática tem ciclos próprios, mas obedece à mesma lógica universal: enquanto a torneira de liquidez estiver aberta, todo ativo aparenta valer mais do que vale, e todo comprador parece esperto. Quando a torneira fecha, descobre-se que metade dos compradores espertos eram apenas tomadores de empréstimo com sorte de timing. A história do crédito barato termina sempre do mesmo jeito, e termina sempre quando ninguém esperava.
O detalhe quase cômico é o silêncio sobre os termos da operação. Comunicado seco, valor redondo, sorrisos no anúncio, e pronto. Nenhuma palavra sobre a estrutura de capital, sobre os covenants do financiamento, sobre as garantias cruzadas, sobre quem fica com o quê se o turismo malaio levar uma pancada na próxima recessão global. O leitor recebe a manchete e arquiva mentalmente como notícia positiva, sem perceber que está sendo treinado a aceitar a aquisição corporativa como fenômeno natural, quando é, na verdade, sintoma de um sistema monetário que há muito tempo perdeu a vergonha de fingir que sabe o que está fazendo.
O hotel em Kuala Lumpur não é a notícia. A notícia é que ainda há quem ache que trinta e oito milhões de dólares são dinheiro de verdade.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.