O debate parece técnico, mas a fraude é primária. Imagine que você deixa um relógio de ouro no guarda-volumes da estação e recebe um bilhete numerado. Agora imagine que o atendente, vendo que você raramente volta no mesmo dia, começa a emitir três bilhetes para o mesmo relógio, empresta dois deles a juros e embolsa a diferença. Quando você e os outros dois portadores aparecem juntos no balcão, descobrem que o relógio é um só. Isso não é engenharia financeira sofisticada, isso é estelionato com livro-razão. E é exatamente o arranjo que certos economistas, supostamente do nosso lado da trincheira, defendem como se fosse a coroa do capitalismo livre.

O argumento dos defensores é sempre embrulhado em retórica contratualista. Dizem que se o cliente concorda em depositar sabendo que o banco vai emprestar a maior parte, está tudo certo, é contrato entre adultos. O detalhe que esse raciocínio esconde debaixo do tapete é que a mesma quantia aparece simultaneamente como saldo disponível à vista para o depositante e como empréstimo ativo para o tomador. Dois donos para o mesmo dinheiro no mesmo instante. Em qualquer outro setor da economia isso se chama venda em duplicidade e dá cadeia. No sistema bancário, ganhou nome bonito, virou multiplicador monetário e entrou no manual da faculdade.

Quem segue a trilha do dinheiro descobre quem ganha com o truque. O banqueiro emite crédito do nada e cobra juros sobre uma poupança que ele não tem. O tomador pega financiamento subsidiado pela diluição alheia. O governo, sócio silencioso da brincadeira, descobre uma fonte inesgotável de demanda pelos seus títulos e financia gastança sem precisar pedir licença ao contribuinte na forma de imposto explícito. Quem paga a conta é o sujeito que guarda dinheiro no banco, vê seu poder de compra evaporar e ainda é chamado de teimoso quando reclama. A inflação, no fundo, é o pedágio invisível dessa estrutura, e ela só existe porque a fraude foi institucionalizada.

Os defensores do arranjo ainda apelam para o argumento da concorrência. Dizem que se houvesse muitos bancos competindo, sem banco central por trás, a disciplina do mercado limitaria os excessos, porque cliente desconfiado correria para sacar e disciplinaria o emissor irresponsável. O problema desse conto é que ele descreve o sintoma da quebra como se fosse o remédio. Toda corrida bancária é a confissão pública de que o banco vendeu duas vezes o mesmo bem. Construir um sistema cuja saúde depende de pânicos periódicos é como elogiar a engenharia de uma ponte porque ela avisa que vai cair antes de cair. Civilização séria não funciona assim.

Há algo de pretensão fatal em achar que se pode escolher só os pedaços agradáveis do arranjo monetário, manter a expansão de crédito convidativa e descartar magicamente o ciclo de boom e bust que ela carrega no DNA. Crédito artificial puxa investimento para projetos que só fazem sentido enquanto o juro estiver mentindo, e quando a verdade dos preços volta, o que parecia prosperidade vira liquidação de ativos, demissão em massa e família endividada. Não existe versão simpática desse mecanismo. Existe versão honesta, em que o banco guarda o que prometeu guardar e empresta apenas o que efetivamente foi confiado a ele em prazo, e existe a versão que se vende hoje, em que o passe de mágica é elevado a virtude.

O ponto que separa o liberal coerente do liberal de meia-tigela é justamente este. Defender mercado livre não é defender qualquer arranjo que tenha contrato escrito; é defender propriedade real, não recibo de propriedade inflado. Moeda lastreada em coisa nenhuma, multiplicada por decreto contábil, é a porta dos fundos pela qual o Estado, mesmo no figurino mais liberal possível, volta a sentar na cabeceira da mesa. Liberdade econômica de verdade começa quando o que está no recibo está no cofre. O resto é nome chique para a velhíssima arte de imprimir o que não se tem e cobrar de quem não consentiu.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.