Existe uma figura tutelar no panteão liberal cuja obra mais famosa é citada em todo discurso de formatura, em toda coluna de jornal bem-pensante, em todo manifesto de político que descobriu ontem que existe algo chamado liberdade. O ensaio sobre a liberdade individual virou catecismo. O problema é que ninguém leu o resto. E o resto, leitor, é o cadáver escondido no porão da casa que esse senhor inglês construiu no século dezenove. Quem abre as outras gavetas encontra defesa entusiasmada de imposto progressivo sobre herança, simpatia explícita por experimentos socialistas, proposta de escolaridade compulsória bancada pelo Estado e uma elasticidade conceitual sobre propriedade privada que faria corar qualquer burocrata de Brasília.

Olha, o sujeito escreveu que o indivíduo é soberano sobre o próprio corpo e a própria mente, frase bonita que cabe em camiseta, e na página seguinte propôs que o Estado decidisse quanto cada família pode transmitir aos filhos. Quer dizer, a liberdade vale até a hora em que o pai morre, aí o coletivo entra na sala com a calculadora. É a velha mágica de quem quer parecer libertário no atacado e estatista no varejo: defende a liberdade abstrata, aquela que não custa nada a ninguém, e entrega ao governo todas as liberdades concretas, aquelas que de fato moldam a vida das pessoas. Liberdade de pensar o que quiser, sim; liberdade de fazer com o próprio dinheiro o que quiser, aí já é outra conversa.

A inconsistência não é deslize de juventude nem reviravolta de velhice. Está cravada no método. Quem parte do princípio de que a utilidade coletiva justifica intervenção do Estado já abriu a porta por onde entrarão todos os tiranos benevolentes da história. Basta um burocrata convencido de que sabe calcular a utilidade alheia melhor do que o sujeito que ganha o salário e a porta vira corredor, o corredor vira avenida, a avenida vira o atual emaranhado regulatório que sufoca qualquer iniciativa econômica do ocidente. O homem fundou, sem perceber, a escola de pensamento que produziria depois o welfare state, a engenharia social progressista e aquele tipo específico de intelectual que se acha liberal porque tolera homossexuais mas acha natural cobrar setenta por cento de imposto sobre o trabalho alheio.

Me diz uma coisa, quem ganha quando se canoniza um pensador cheio de furos lógicos? Ganha o establishment acadêmico que precisa de um santo palatável para apresentar liberdade aos calouros sem assustar os professores marxistas do departamento ao lado. Ganha o político de centro que cita o ensaio sobre liberdade no microfone enquanto vota imposto novo na semana seguinte. Ganha a imprensa generalista que precisa de um liberal domesticado, com pedigree britânico, para contrastar com os liberais de verdade, aqueles austríacos chatos que insistem em dizer que imposto é confisco e inflação é roubo. Siga a trilha da reverência e encontrará sempre alguém faturando com a confusão conceitual.

A herança envenenada desse pensamento meio liberal meio estatista é o que assistimos hoje em pleno funcionamento. Toda vez que um governo proíbe algo invocando o bem do próprio cidadão que está sendo proibido, está executando a doutrina. Toda vez que o fisco confisca patrimônio em nome de uma suposta justiça redistributiva calculada por algum doutor de gabinete, está executando a doutrina. Toda vez que o ministério da educação decide o que seu filho deve aprender porque você, pai, supostamente não tem capacidade de escolher, está executando a doutrina. O verniz liberal continua lá, brilhando na capa do livro citado nas universidades; o conteúdo estatista, esse, virou o sistema operacional dos governos contemporâneos.

A lição que essa figura nos deixa, ainda que involuntariamente, é a mais valiosa de todas: não existe meio termo entre liberdade e tutela. Quem tenta o equilíbrio acaba escorregando para o lado do poder, porque o poder não dorme, não recua e não devolve território conquistado. Defender a liberdade pela metade é entregá-la inteira, só que parcelada. E ainda agradecer ao cobrador no fim do mês.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.