Está se desenhando no horizonte uma data que os entendidos batizaram de Q-Day, o momento em que a inteligência artificial dará o salto que obrigará todo mundo, do operário ao cirurgião, a refazer sua relação com o trabalho, com o conhecimento e com a própria noção de competência. Até aí, nada de novo sob o sol. O que é novo, e absolutamente previsível, é a corrida dos governos do mundo inteiro para se apresentarem como os tutores naturais dessa transição. Já existe gente em Brasília, em Bruxelas e em Washington vendendo a ideia de que precisamos urgentemente de uma autoridade central, um marco regulatório robusto, um conselho de notáveis para decidir o que a máquina pode e não pode fazer. Quer dizer, os mesmos que não conseguem fazer um pregão eletrônico funcionar sem cair querem agora reger a sinfonia da inteligência artificial.

Olha, isso não é incompetência apenas. É arrogância travestida de prudência. Nenhum burocrata, por mais titulado que seja, possui o conhecimento disperso entre milhões de programadores, pesquisadores, empresários, usuários e curiosos que estão hoje, neste exato minuto, descobrindo aplicações que nenhuma comissão jamais imaginaria. Quando o Estado se mete a planejar uma tecnologia em movimento, ele congela o que deveria fluir, premia o lobby que tem assento na mesa e mata no berço o inovador que não foi convidado. A história econômica do século vinte é um cemitério de planejamentos brilhantes que entregaram pobreza, fila e racionamento. Não há razão alguma para acreditar que dessa vez será diferente.

E aqui vale seguir a trilha do dinheiro, porque ela sempre conta a história que os comunicados oficiais escondem. Quem está empurrando o discurso da regulação pesada? Em larguíssima medida, as próprias gigantes do setor, que já têm batalhões de advogados, departamentos inteiros de compliance e canais abertos com reguladores. Regulação pesada não machuca o gigante, machuca o nanico que ainda nem nasceu. É a velha tática do capitalismo de compadrio, aquele arranjo nojento em que empresa e governo se sentam à mesma mesa para combinar o cardápio enquanto o consumidor paga a conta sem ser ouvido. A retórica é de proteção, o efeito prático é a construção de monopólios subsidiados pelo medo coletivo.

O argumento da segurança, claro, é o ariete que sempre derruba a muralha da liberdade. Vão dizer que a inteligência artificial é perigosa demais para ficar nas mãos de qualquer um, que precisamos de salvaguardas, de licenças, de auditorias estatais, de uma agência nova com orçamento generoso e diretores indicados politicamente. E o cidadão, assustado pelos roteiros de ficção científica que confundiu com análise, aceita trocar mais um naco da sua autonomia por uma segurança que nunca chega. É o despotismo suave da burocracia moderna, aquele que não bate na porta com botas, mas chega com formulário, taxa de cadastro e prazo para regularização. No fim, você está domesticado e ainda achou que escolheu.

O mercado livre, esse organismo vivo que ninguém projetou e ninguém comanda, é o único sistema capaz de absorver um choque tecnológico dessa magnitude sem despedaçar a sociedade. Foi assim com a prensa móvel, com a máquina a vapor, com a eletricidade, com o automóvel, com a internet. Em cada uma dessas rupturas, os profetas do controle estatal anunciaram o apocalipse e exigiram tutela. Em cada uma delas, foi a descentralização, a tentativa e erro de milhões de agentes, a competição feroz e a liberdade de empreender que transformaram a ameaça em prosperidade. Quem quiser estudar o caso, basta abrir o jornal e ler o que dizem hoje sobre a IA. É o mesmo roteiro, com atores trocados, prometendo o mesmo desastre que nunca veio.

O ponto inegociável é simples: não há almoço grátis, não há salvador togado, não há comitê de iluminados capaz de substituir a inteligência distribuída de uma sociedade livre. Toda vez que um governo se apresenta como solução para um problema que ele mesmo não entende, o que ele está fazendo é se candidatar a ser o próximo problema, agora maior, mais caro e mais difícil de remover. Q-Day virá, com ou sem permissão da Esplanada dos Ministérios. A pergunta não é se vamos atravessar essa ponte, é quem vai cobrar pedágio do outro lado. E se deixarmos a coisa nas mãos dos de sempre, o pedágio será a nossa liberdade.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.