Apareceu de novo, com nova roupagem acadêmica, o velho expediente de transformar conquista em culpa. Os teóricos da chamada igualdade pela sorte resolveram que a riqueza, o talento, a inteligência, a saúde e até a disposição para o trabalho não pertencem a quem os possui, porque foram, no fundo, distribuídos por uma loteria cósmica. Logo, qualquer diferença material entre seres humanos seria, por definição, ilegítima, e o Estado teria não apenas o direito mas o dever moral de redistribuir o que a tal sorte injustamente concedeu. É bonito como tese de doutorado, é devastador como política pública, e é, sobretudo, intelectualmente desonesto.

Olha, o truque aqui é antigo e funciona assim: você pega algo impossível de medir, impossível de definir e impossível de isolar, batiza com um nome solene, e em cima dessa nuvem constrói um edifício jurídico que termina sempre, sempre, na mesma conclusão prática, qual seja, tirar de quem tem para dar a quem administra a transferência. Nunca, em nenhuma versão dessa teoria, a conclusão é deixar as pessoas em paz. A sorte é a premissa, o confisco é a conclusão, e entre uma coisa e outra há uma série de saltos lógicos que só não derrubam o argumento porque ninguém tem coragem de empurrá-lo.

Me diz uma coisa: se o talento de um cirurgião é fruto da sorte genética, por que o esforço de duas décadas estudando madrugada adentro também é? E se tudo é sorte, inclusive a disposição de acordar cedo, então o burocrata que vai redistribuir os frutos do tal sorteio também está agindo por sorte, e seu juízo moral sobre quem merece o quê é igualmente arbitrário. O argumento se devora a si mesmo no segundo parágrafo, mas como ninguém lê até o segundo parágrafo, a coisa prospera. É a ironia perfeita: uma teoria que nega o mérito intelectual dos outros é vendida como mérito intelectual de seus formuladores.

E quer dizer, mesmo concedendo, por hipótese absurda, que tudo seja sorte, ainda assim o argumento não vai a lugar nenhum. Porque o fato de eu ter recebido algo por circunstâncias que não controlei não autoriza um terceiro a tomar de mim. A criança que nasceu numa família amorosa também teve sorte, e nem por isso vamos sortear filhos entre lares. A pessoa que nasceu num país pacífico teve sorte, e nem por isso vamos redistribuir cidadanias. A propriedade legitimamente adquirida não perde legitimidade só porque alguém, num gabinete, decidiu rotular sua origem como afortunada. Isto não é filosofia, é pretexto.

Siga o dinheiro e a máscara cai. Quem se beneficia dessa teoria não são os pobres do mundo real, são os intermediários do mundo acadêmico e burocrático que se autonomeiam administradores da redistribuição. Cada centavo confiscado em nome da sorte passa por mãos muito específicas, gera cargos muito específicos, financia institutos muito específicos, e produz, ao fim, uma classe parasitária que vive precisamente da existência permanente da desigualdade que diz combater. Resolver o problema seria suicídio profissional. Por isso ele nunca é resolvido, apenas administrado em escala crescente.

O fundo da questão é moral, e é por isso que se disfarça de técnico. Quem inveja o sucesso alheio precisa de uma justificativa que não soe como inveja, e a sorte é o álibi perfeito, porque transforma ressentimento em justiça social e furto em equidade. É a mesma alma que sempre quis tomar o que era dos outros, agora com nota de rodapé acadêmica. A civilização que aceita esse argumento está aceitando que o trabalho não vale, que a poupança não vale, que o esforço não vale, e que o único valor real é estar do lado certo de quem distribui o saque. Quando o roubo vira filosofia, a filosofia vira roubo.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.