Olha o que está acontecendo debaixo do nariz dos reguladores americanos e ninguém quer admitir em voz alta: o crédito privado, esse mercado paralelo que hoje movimenta trilhões de dólares fora do sistema bancário tradicional, não é uma anomalia, não é uma bolha, não é uma manifestação de ganância descontrolada. É o resultado matemático, previsível, inevitável de décadas de regulação bancária que empurrou o risco para fora do balanço dos bancos comerciais. O dinheiro não evaporou. Ele apenas mudou de endereço. E os mesmos burocratas que celebraram quando Basileia III tornou os bancos "mais seguros" agora descobrem, com a cara surpresa de quem nunca leu um livro de economia decente, que o risco simplesmente migrou para fundos de crédito privado, BDCs, veículos estruturados e arranjos que ninguém regulava porque ninguém imaginava que existiriam.
Quer dizer, imaginavam sim. Qualquer um que tenha estudado história monetária sabe disso há um século. Quando você proíbe o crédito de fluir pelo caminho A, ele flui pelo caminho B. Quando você regula o caminho B, surge o caminho C. É como tentar segurar água com a mão fechada: quanto mais aperta, mais escapa. Os bancos não emprestam mais para empresas médias com risco moderado porque o capital regulatório exigido para esse tipo de operação tornou o negócio inviável. Resultado: surgiram centenas de fundos privados que fazem exatamente isso, com taxas mais altas, sem o seguro do FDIC, sem janela de redesconto do Fed, e, ironia das ironias, frequentemente capitalizados pelos mesmos bancos que foram proibidos de fazer a operação direta.
Siga o dinheiro e você vai entender a piada inteira. Os grandes bancos americanos hoje são os maiores financiadores dos fundos de crédito privado que competem com os próprios bancos. Goldman, JPMorgan, Wells Fargo, todos eles. A regulação que prometia separar o varejo do casino financeiro apenas criou um intermediário a mais na cadeia, mais opaco, mais alavancado, e protegido por uma muralha jurídica que nenhum cidadão comum atravessa. O contribuinte continua sendo o avalista implícito do sistema, só que agora através de duas, três camadas de empresas de fachada que ninguém audita direito. Chamar isso de "mercado livre" é insultar o vocabulário.
E aqui mora a contradição que os defensores da regulação infinita nunca conseguem explicar: se cada nova regra produz um novo arranjo paralelo que precisa de regulação, e essa regulação produz outro arranjo, e assim por diante, em que momento o sistema fica seguro? Resposta: nunca. Porque a premissa é falsa. O conhecimento necessário para regular um sistema financeiro complexo está disperso em milhões de cabeças, em milhões de transações, em milhões de cálculos de risco que mudam a cada segundo. Nenhum comitê em Washington, nenhum algoritmo do Bank for International Settlements, nenhum regulador europeu de terno cinza tem condição cognitiva de saber o que cada agente sabe sobre seu próprio negócio. A pretensão de planejar isso de cima é a mesma pretensão fatal que arruinou a União Soviética, só que com terno melhor.
O risco real do sistema financeiro americano não está no crédito privado em si. Está no fato de que o governo passou cinquenta anos criando a ilusão de que ninguém perde dinheiro de verdade, que toda crise será socializada, que todo grande jogador será resgatado. Isso é o que distorce o cálculo econômico na origem. O empresário que avalia risco sabendo que pode quebrar opera diferente do empresário que sabe que será salvo. Multiplique isso por trinta anos de bailouts e taxa de juros artificialmente baixa e você tem o resultado óbvio: o capital migra para onde encontra retorno, mesmo que o retorno seja artificial, mesmo que o risco seja maquiado, mesmo que o castelo seja de areia. Quando vier o ajuste, e ele sempre vem, vão culpar a "ganância dos mercados" como sempre culparam, e proporão mais regulação, como sempre propuseram, criando o próximo arranjo paralelo que vai estourar daqui a quinze anos.
Não existe sistema financeiro seguro num ambiente de moeda fiat manipulada por banco central. Existe sistema financeiro funcional num ambiente onde quem ganha embolsa e quem perde quebra, sem rede, sem socorro, sem lobby. Tudo o mais é teatro caro, encenado por gente que ganha a vida fingindo que entende o que está fazendo. O mercado sempre escapa porque o mercado não é uma coisa, é o nome que damos para milhões de pessoas tentando sobreviver às idéias geniais de quem nunca criou um centavo de valor real. Quem ainda acredita que mais uma camada de regulação vai resolver o problema desta vez, parabéns, está pronto para a próxima crise. Ela já está sendo gestada, no escuro, exatamente onde os reguladores não estão olhando.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.