Toda semana de abril em Augusta, Georgia, acontece algo que os economistas de banco central e os colunistas de esquerda preferem não analisar com atenção: dezenas de empresas privadas competem ferozmente para servir melhor o cliente, gastando o próprio dinheiro, arriscando a própria reputação, sem garantia de retorno e sem rede de proteção governamental. O resultado é previsível para quem entende como mercados funcionam e escandaloso para quem foi formado na crença de que alguém precisa planejar o que as pessoas devem querer.
As empresas de aviação executiva transformaram a semana do Masters no maior evento do ano para o setor, e não fizeram isso por decreto nem por subvenção. Fizeram porque perceberam, antes de qualquer burocracia, que um cliente capaz de pagar cem mil dólares para estar no Augusta quer mais do que uma cadeira num avião. Quer experiência, quer exclusividade, quer a sensação de que o dinheiro que ele construiu durante anos de trabalho e risco está sendo tratado com a seriedade que merece. Terminais privativos, bufês de cozinha de autor, sommelier a bordo, carro na pista assim que a aeronave para. Nenhum gerente governamental alocou esses recursos. Nenhum planejador central descobriu essa necessidade. O mercado descobriu sozinho, porque o mercado é o único sistema que agrega, em tempo real, o conhecimento disperso entre milhões de pessoas que nunca se encontrarão numa sala de reuniões.
A ironia que ninguém pronuncia em voz alta é esta: o mesmo capital privado que a narrativa dominante insiste em tratar como problema, como concentração obscena, como injustiça a ser corrigida pela tributação progressiva, é exatamente o capital que financia o desenvolvimento de aeronaves mais eficientes, que emprega mecânicos, pilotos, comissários, chefs, motoristas e seguranças, que movimenta cadeias inteiras de fornecimento que nenhum ministério da economia jamais mapeou. Siga o dinheiro de verdade, não o dinheiro que aparece nos relatórios de impacto social. Siga até o último trabalhador da fila, o responsável pela limpeza do terminal privado em Augusta, que tem emprego porque um empresário apostou que um cliente rico queria chão polido num hangar no interior da Georgia.
O que incomoda não é a riqueza em si. O que incomoda é que ela funciona sem permissão. Não precisa de aprovação, não precisa de consenso, não precisa de legitimação ideológica. Uma empresa decide oferecer um serviço que ninguém oferecia, outra decide melhorar o serviço existente, uma terceira inventa algo que ninguém havia pedido porque ninguém sabia que queria. É assim desde que os primeiros comerciantes descobriram que podiam trocar excedentes com eficiência maior do que qualquer redistribuidor central. Roma tinha seus mercadores de luxo servindo a elite do Mediterrâneo com especiarias da Índia e vinhos da Gália, e nenhum pretor da cidade havia planejado aquela cadeia logística. Ela simplesmente emergiu porque a demanda existia e alguém teve a coragem de assumir o risco de servi-la.
Enquanto isso, a conversa pública no Brasil e no mundo gira em torno de como tributar esses jatos, como regular esses terminais, como criar uma "taxa de solidariedade" sobre viagens de luxo, como se destruir a ponta mais visível do iceberg resolvesse alguma coisa além da inveja coletivizada que passou a se chamar de política fiscal. O Estado que fracassa em pavimentar estradas sem desvio de verba, que não consegue manter um sistema de saúde funcional depois de décadas de monopólio, que entrega educação pública de qualidade cada vez mais constrangedora, este mesmo Estado quer administrar a riqueza alheia com a sabedoria que não demonstrou em nenhuma de suas próprias atribuições mínimas. A pretensão seria cômica se não custasse tão caro.
O Masters de jatos não é símbolo de desigualdade. É símbolo de que, quando o Estado recua e os homens são livres para trocar, para servir, para competir e para errar com o próprio dinheiro, a criatividade humana não tem teto. O escândalo real não é que existam pessoas ricas o suficiente para alugar um terminal privado em Augusta. O escândalo real é que achamos normal um governo que nos cobra metade do que produzimos e entrega em troca fila, formulário e incompetência institucionalizada. Quem deveria estar com vergonha nessa história não é quem pode pagar por um jato.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.