Quem acompanhou a saga sabe que a OpenAI nasceu como organização sem fins lucrativos, jurando de pés juntos que salvaria a humanidade da inteligência artificial maligna, e terminou virando um polvo corporativo avaliado em centenas de bilhões cuja única missão visível agora é distribuir ações para insiders e contratos com a Microsoft. No meio do caminho, o cofundador mais barulhento da casa, despeitado por ter saído cedo da festa, resolveu processar os antigos sócios alegando que eles traíram a missão original. Olha, traíram mesmo. Mas quem assistiu o filme inteiro sabe que o autor da ação também queria estar no controle quando a traição acontecesse, e essa é a parte que ele esquece de mencionar nas petições.

O espetáculo no tribunal tem aquele charme particular das brigas entre oligarcas: dois homens que juntos manejam mais capital que o PIB de várias repúblicas trocando farpas sobre quem é mais sincero na cruzada pela salvação da espécie. Quer dizer, é difícil engolir o discurso messiânico de qualquer um dos lados quando a coisa toda é, no fundo, uma disputa por quem fica com a chave do cofre. E o cofre, convém lembrar, foi construído com dinheiro de investidores que receberam isenções fiscais, com pesquisa básica financiada por universidades públicas, com energia subsidiada pelo Estado e com um arcabouço regulatório desenhado sob medida para que apenas três ou quatro empresas no planeta consigam competir nesse setor.

Eis o truque mais antigo do manual do capitalismo de compadrio: você captura o regulador, exige licenças impossíveis para concorrentes, lobbya por exigências de compliance que só gigantes conseguem cumprir, e de repente o mercado livre que nunca foi livre vira monopólio com verniz de inovação. Os mesmos executivos que hoje pedem ao Congresso americano que regule pesadamente a inteligência artificial são exatamente aqueles que mais lucrarão com a regulação, porque ela elimina a concorrência de garagem que poderia, um dia, derrubá-los. Não é proteção do consumidor, é proteção do oligopólio. E o consumidor, esse coitado, paga duas vezes: na conta de luz que financia os data centers subsidiados e no preço do serviço final, que, com menos concorrência, só sobe.

O detalhe deliciosamente sórdido da disputa é que, em ambos os lados da mesa, o argumento moral é o mesmo: a humanidade precisa ser salva de si mesma, e só nós, os iluminados de Palo Alto, sabemos como fazer. É a velha tirania exercida para o seu próprio bem, aquela que nunca dorme porque a consciência do tirano o aprova. Toda vez que alguém aparece dizendo que vai te proteger de uma tecnologia desenvolvida por ele mesmo, agarre a carteira. E, se possível, fuja.

Enquanto isso, a parte mais importante da história permanece invisível para o noticiário convencional: as milhares de pequenas empresas, pesquisadores independentes, desenvolvedores autônomos e empreendedores que jamais terão a chance de competir nesse mercado porque o jogo já foi cartelizado antes mesmo de começar. Para cada bilionário fazendo charme no tribunal, há centenas de inovadores anônimos sendo esmagados por uma estrutura regulatória que se vende como ética e funciona como reserva de mercado. E essa é a parte que ninguém vê, justamente porque é a parte que dá lucro a quem está no holofote.

No fim, o que esse circo revela é o velho padrão que se repete desde a primeira ferrovia subsidiada do século dezenove: privatizam-se os lucros, socializam-se os custos, moralizam-se as motivações e processa-se quem tentou pular fora antes do golpe ficar evidente. A inteligência artificial pode até mudar o mundo, mas o roteiro de quem vai ficar rico com ela é tão antigo quanto a própria invenção do conluio entre empresário e governo. E, por mais que troquem de roupa, esses dois sempre dançam juntos.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.