Washington anunciou com pompa a criação de um consórcio internacional de minerais críticos, costurando acordos com aliados para "garantir" o suprimento de cobalto, lítio, terras raras e companhia. A justificativa, como sempre, vem embrulhada em papel de presente patriótico: segurança nacional, autonomia industrial, contenção da China. A tradução honesta, porém, é mais prosaica. Trata-se de um arranjo onde burocratas em Washington decidirão, com mapas coloridos e planilhas otimistas, quais minas devem operar, quais países merecem subsídio, quais empresas serão ungidas como "campeãs estratégicas". E o contribuinte americano, claro, paga a conta sem ter sido consultado sobre nada.

O problema central dessa engenhoca não é ideológico, é aritmético. Nenhum comitê interagências, por mais doutorado que acumule, possui o conhecimento disperso entre milhões de produtores, engenheiros, mineradores, refinadores e consumidores ao redor do planeta. Esse conhecimento só aparece de uma maneira: pelo sistema de preços livres operando sob propriedade privada e responsabilidade pelos prejuízos. Quando o governo entra com cheque em branco e promessa de compra garantida, os preços deixam de transmitir informação e passam a transmitir ordens políticas. O mineral vira commodity diplomática, e o cálculo econômico vira ficção contábil.

Vale lembrar a galeria de fracassos que precedeu essa empreitada. Houve o programa de etanol celulósico que iria revolucionar os combustíveis, a Solyndra que iria liderar a energia solar, a aposta no urânio doméstico nos anos setenta, o estoque estratégico de cobalto da Guerra Fria que apodreceu em armazéns federais. Cada um desses experimentos foi anunciado com o mesmo vocabulário: segurança, futuro, liderança, autonomia. Cada um deles terminou no mesmo cemitério orçamentário, com bilhões evaporados e um relatório bonito explicando por que da próxima vez vai dar certo. Existe uma constante histórica aqui que ninguém em Washington quer enxergar: governo não descobre tendência tecnológica, governo persegue tendência tecnológica já consolidada, geralmente comprando o topo do ciclo.

Siga o dinheiro e o teatro fica ainda mais previsível. Quem ganha com um consórcio internacional de minerais? Não é o consumidor, que vai pagar preços inflados pela ineficiência embutida. Não é o pequeno minerador independente, que será esmagado pelos requisitos regulatórios criados sob medida para gigantes. Quem ganha são as empresas com lobby instalado na capital, os escritórios de advocacia especializados em compliance internacional, os think tanks que produzem os estudos que justificam os subsídios, e os governos estrangeiros que descobriram ser muito mais lucrativo negociar com o Tesouro americano do que com o mercado. É capitalismo de compadrio com bandeira de geopolítica, e o nome técnico disso na história econômica é mercantilismo, uma doutrina que pensávamos enterrada no século dezoito.

Há ainda o efeito colateral mais perverso, aquele que nunca aparece nas coletivas de imprensa. Cada dólar gasto subsidiando uma mina de lítio na Austrália ou uma refinaria de terras raras no Canadá é um dólar extraído à força do bolso de alguém que teria usado esse capital em algo produtivo. A fábrica que não foi construída, o emprego que não foi criado, a inovação que não foi financiada porque o capital foi para o consórcio escolhido a dedo pelo Departamento de Estado, isso tudo é invisível nas estatísticas oficiais mas é absolutamente real na vida de quem teria se beneficiado. A política industrial é sempre uma transferência de riqueza dos que produzem para os que sabem caminhar pelos corredores do poder.

O desfecho é previsível porque já foi escrito tantas vezes. Em cinco anos, alguém publicará um relatório constatando que o consórcio custou três vezes o previsto, entregou metade do prometido, e que a China continua dominando a cadeia justamente porque opera com escala e disciplina que nenhum cartel ocidental subsidiado consegue replicar. Aí virão novas rodadas de subsídio para corrigir os subsídios anteriores, e o ciclo recomeça. A verdadeira segurança mineral não vem de planejadores em Washington fingindo que entendem o mercado global de matérias-primas; vem de mercados livres, propriedade privada respeitada, impostos baixos e regulação enxuta que permitam à iniciativa privada extrair, refinar e inovar onde fizer sentido econômico. Tudo o mais é fantasia cara paga com dinheiro alheio.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.