A reportagem que circulou nos círculos técnicos esta semana descreve, com uma frieza estatística que beira o constrangedor, o que aconteceu com a geração de homens sul-coreanos que hoje atravessa a faixa dos cinquenta anos. São os sujeitos que, ainda meninos, foram empurrados para dentro das fábricas da Samsung, da Hyundai, da LG e dos chaebols menores; trabalharam catorze horas por dia durante três décadas; sustentaram esposa, filhos, sogros e pais; e agora, ao primeiro sinal de cabelo branco, descobrem que a sociedade que eles ergueram com as próprias mãos não tem mais lugar para eles. Demitidos cedo, divorciados em seguida, alienados dos filhos que mal viram crescer, esses homens lideram com folga as estatísticas de suicídio masculino do mundo desenvolvido. O milagre coreano tem nome, sobrenome e número de funeral.

Convém entender o que se passou ali, porque o caso coreano não é exótico, é profético. Nos anos oitenta e noventa, o Ocidente apaixonou-se pela ideia do tigre asiático que saiu da pobreza extrema para a fronteira tecnológica em uma única geração. Vendeu-se isso como triunfo do planejamento estatal aliado à disciplina confuciana, e os manuais de economia do desenvolvimento até hoje repetem a fábula. O que ninguém quis ver é que esse tipo de salto não se faz com capital e tecnologia apenas; faz-se com corpos. Corpos masculinos, anônimos, descartáveis, que entram na engrenagem aos vinte anos e saem dela aos cinquenta sem aposentadoria digna, sem rede afetiva, sem propósito. A Coreia industrializou-se queimando a biografia inteira de uma classe de homens que nunca foi consultada sobre o preço.

O detalhe sinistro é que tudo isso foi pactuado no nome de um futuro coletivo que nunca chegou para os que pagaram a conta. A taxa de natalidade do país despencou para o menor índice do planeta, abaixo de zero vírgula oito filhos por mulher, e as próprias mulheres coreanas, em movimento crescente, recusam-se ao casamento e à maternidade alegando, com alguma razão, que não querem reproduzir o destino dos pais. Ou seja, o sacrifício da geração anterior não comprou a continuidade da nação, comprou apenas a sua extinção demográfica acelerada. O sujeito de cinquenta e cinco anos que está hoje bebendo soju sozinho num apartamento de Seul não foi traído por uma esposa ou por um patrão, foi traído por uma promessa civilizacional inteira que se revelou, no fim, um esquema de pirâmide afetivo.

Há uma lição aí para quem ainda olha para o leste asiático com olhos de catálogo turístico tecnológico. Toda vez que uma sociedade decide tratar o trabalho como religião de Estado e o mercado como instância última de validação humana, o resultado, com atraso de uma geração, é exatamente esse: homens vazios, mulheres em greve reprodutiva, idosos invisíveis e um produto interno bruto monumental que ninguém sabe mais para que serve. Os mesmos profetas globalistas que aplaudem o modelo coreano são os que, em Davos, lamentam a crise de propósito do homem ocidental contemporâneo, sem perceber, ou fingindo não perceber, que estão diagnosticando a doença que eles próprios prescreveram como remédio.

O Brasil deveria prestar atenção, e prestar muita. Vendem aqui, todos os dias, a ideia de que precisamos virar Coreia, virar Cingapura, virar Taiwan, como se essas fossem utopias prontas para download. Convém olhar para o boletim médico antes de comprar a passagem. A pergunta que ninguém faz nas conferências de inovação é a mais simples e a mais incômoda: para que serve uma economia capaz de fabricar semicondutores de três nanômetros se ela é incapaz de produzir um homem de cinquenta anos que tenha vontade de acordar de manhã. A técnica sem propósito humano é, no fim, apenas uma forma sofisticada de moer carne. Os coreanos descobriram tarde demais. Que pelo menos sirva de aviso a quem ainda está em tempo.

Com informações da Hacker News. A análise e opinião são do O Algoz.