O caso de Mary, profissional de marketing com décadas de Vale do Silício no currículo, devolvida ao desemprego enquanto recrutadores correm atrás de candidatos com visto H-1B, não é uma anomalia do mercado. É o resultado matemático de um programa desenhado, votado, regulamentado e protegido por gente que jura, de mãos no peito, defender o trabalhador americano. O programa nasceu com a desculpa nobre de cobrir escassez pontual de talentos raros e virou, com a precisão de uma esteira industrial, um mecanismo de substituição salarial em massa. Quem olha o anúncio do emprego vê uma vaga. Quem olha a planilha do RH vê uma economia de trinta, quarenta por cento sobre o salário de mercado, com bônus de funcionário cativo que não pode pedir demissão sem perder o direito de respirar o ar do país.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz em três atos. Primeiro, as big techs financiam lobistas que escrevem, com vírgulas e tudo, a legislação que depois aparece pronta no Congresso para ser votada por deputados que não leram a quinta página. Segundo, consultorias indianas se especializam em loteria de vistos, abrindo CNPJs de fachada para multiplicar inscrições e capturar quotas inteiras antes do meio-dia de abertura. Terceiro, o trabalhador americano paga a conta duas vezes, na demissão e no imposto que sustenta o aparato burocrático que o demitiu. A vaga que se vê é a do indiano contratado. A vaga que não se vê é a do americano com hipoteca, dois filhos e currículo agora obsoleto porque o mercado interno foi artificialmente afundado.

Chamar isso de livre mercado é um insulto à inteligência de quem entende a diferença entre concorrência espontânea e arranjo cartelizado. Mercado livre é trabalhador escolhendo onde vender sua força, empresa escolhendo a quem comprar, preço se ajustando entre os dois sem terceiro armado segurando a balança. O que existe nos Estados Unidos é o oposto exato, um terceiro armado, o Estado federal, que importa oferta de trabalho subsidiada por status migratório vinculado ao empregador, criando uma classe de trabalhadores que aceita salário menor porque a alternativa é a deportação. Isso não é capitalismo, é servidão de contrato com selo de qualidade do Departamento de Estado.

O paradoxo cultural é ainda mais cruel do que o econômico. As mesmas empresas que financiam campanhas sobre diversidade, inclusão, ascensão de minorias locais e empoderamento da mulher no STEM, demitem a Mary de cinquenta e poucos anos para contratar três rapazes de Bangalore por menos da metade. A retórica da inclusão serve para abafar o protesto do excluído. Quando o americano da classe média protesta, é chamado de xenófobo. Quando o lobista de Mountain View pressiona por mais vistos, é chamado de visionário. As palavras mudaram de função, viraram cortinas de fumaça para encobrir o que sempre foi, na prática, uma transferência colossal de renda do trabalhador para o acionista.

Há ainda o capítulo das universidades, sócias quietas do esquema, vendendo mestrados duvidosos a preço de luxo porque o diploma é o passaporte para o visto, que é o passaporte para o emprego, que é o passaporte para o green card. Toda a engrenagem está costurada como um tear de Manchester, e quem se ferra é o jovem americano que se endividou em cento e cinquenta mil dólares numa graduação para descobrir, no dia da formatura, que o cargo de entrada foi terceirizado antes mesmo dele entregar o currículo. O Estado vendeu o futuro dos seus para baratear o presente de alguns. Não é tragédia inesperada, é política deliberada, com nome, sobrenome, número de lei e endereço de lobista no K Street.

O remédio não é fechar fronteira nem perseguir imigrante, que ninguém em sã consciência defende. O remédio é tirar do governo o poder de mexer no preço da mão de obra, acabar com o vínculo do visto ao empregador, deixar o estrangeiro chegar pela porta da frente como cidadão livre ou ir embora, e parar de financiar com dinheiro público a engenharia salarial das maiores empresas privadas do planeta. Enquanto isso não acontecer, Mary continuará mandando currículo, a planilha continuará economizando, e o discurso oficial continuará repetindo que a economia americana nunca esteve tão forte. Forte para quem assina o cheque. Fraca para quem deveria recebê-lo.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.