O sujeito que nunca pôs os pés numa cidadezinha da Virgínia Ocidental imagina os Apalaches como sempre foram: pobres, isolados, atrasados. Mas pobreza não é necessariamente miséria, e atraso material não é necessariamente decomposição social. Durante gerações, aquela gente viveu de aço, ferro e carvão, com salários modestos e dignidade intacta, casamentos longos, filhos batizados, vizinhos que se conheciam pelo nome e pelo sobrenome da avó. A pobreza era um fato; a desintegração, não. O que veio depois, e que hoje se vê em cada vilarejo abandonado, com seringas no chão e adolescentes desdentados aos vinte anos, não foi o capitalismo selvagem que destruiu aquilo. Foi exatamente o contrário.

Quando as minas começaram a fechar e a siderurgia migrou para outros continentes, a região passou pelo que toda economia honesta passa quando perde sua base produtiva: dor, ajuste, reinvenção, gente arrumando as malas, gente se virando. Foi nesse momento, o momento em que a comunidade precisava se readaptar pelas próprias pernas, que Washington apareceu com o sorriso de tio rico oferecendo um cheque mensal. Auxílio para isto, auxílio para aquilo, cupom de comida, indenização por incapacidade que ninguém fiscaliza, programa para mãe solteira, programa para pai ausente, programa para o programa anterior que não funcionou. O recado implícito era cristalino: você não precisa mais se mover, nós cuidamos de você.

E aí está o truque mais antigo da história do poder, vestido de compaixão. Tire de um homem a obrigação de prover, e você lhe tira a razão de levantar da cama. Tire da família a função econômica, e ela vira concha vazia. Tire da comunidade a tarefa de socorrer os seus, e a igreja esvazia, o clube esvazia, o vizinho vira estranho. Foi exatamente isso que aconteceu. O que se vê hoje, a epidemia de opioides, o colapso do casamento, a fuga dos jovens, o desemprego permanente, é o resultado lógico, previsível e quase matemático de décadas de transferência de renda desenhada por gente que nunca pisou num posto de mineração na vida. A janela quebrada que ninguém vê é a vida que aqueles homens teriam construído se o Estado não tivesse comprado a passividade deles a prazo.

E note quem ganha com o arranjo, porque toda política pública tem beneficiário oculto. Ganha o burocrata que administra o programa, ganha a ONG que distribui o auxílio, ganha o farmacêutico que receita o oxicodona, ganha o congressista que se reelege prometendo manter o benefício, ganha o intelectual de Harvard que escreve papers sobre "vulnerabilidade estrutural" e ganha um cargo no próximo governo. Quem perde é o caboclo de cinquenta anos que poderia estar fazendo qualquer coisa útil, e está em casa assistindo televisão com a cabeça enevoada de fentanil legal, esperando o dia cinco do próximo mês. A compaixão estatal sempre engorda quem a administra e desossa quem a recebe.

Há uma lição maior aqui, e ela vale para o Brasil mais do que para os Estados Unidos. Toda vez que algum economista de paletó aparece na televisão dizendo que a solução para a pobreza regional é mais transferência, mais Bolsa isto, mais Auxílio aquilo, mais "renda mínima de cidadania", lembre-se dos Apalaches. Aquilo é o laboratório, o experimento já rodado, o filme cujo final todo mundo conhece. Onde o cheque chega, a iniciativa vai embora. Onde a tutela se instala, a virtude evapora. Onde o homem é tratado como criança, ele se comporta como criança, e a criança adulta com acesso a opioides legais e ressentimento crônico é a figura mais triste que uma civilização pode produzir.

Os Apalaches resistiram à Grande Depressão, resistiram a duas guerras mundiais, resistiram ao fim do carvão e à globalização chinesa. Não resistiram ao funcionário público bem-intencionado com uma caneta e um talão de cheques. Talvez seja hora de admitir que a forma mais eficiente de matar um povo não é com fome, é com mesada.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.