Olha, tem uma coisa engraçada na economia oficial, aquela que sai nos jornais grandes e nos relatórios de banco. Eles falam de tudo, de PIB, de juros, de produtividade, de hiato do produto, de coeficiente disso e índice daquilo, mas existe um recurso central, talvez o único verdadeiramente escasso no sentido absoluto da palavra, que eles fingem não ver. O tempo. E não é por descuido. É porque, no momento em que você coloca o tempo no centro da análise econômica, a casa de cartas do planejamento central desaba inteira, e com ela a justificativa para o emprego de meio milhão de burocratas que vivem dizendo ao cidadão o que ele deve fazer com a vida dele.

O ponto é o seguinte. Toda ação humana acontece no tempo, e o tempo é a única coisa que não retorna. Você pode perder dinheiro e recuperar, perder saúde e recuperar, perder reputação e recuperar. O tempo que se foi, foi. Quando alguém escolhe estudar em vez de trabalhar, casar em vez de viajar, poupar em vez de consumir, está fazendo um cálculo subjetivo sobre o valor do agora versus o valor do depois, e esse cálculo é dele, intransferível, irredutível a fórmula. É por isso que toda vez que o governo decide pelo cidadão, decide errado. Não porque o burocrata seja burro, mas porque ele não tem acesso à informação que está dentro da cabeça do sujeito que vive a vida dele.

E aqui aparece a fraude central da política monetária moderna. Quando o banco central derruba os juros artificialmente, ele está mentindo sobre o tempo. Está dizendo ao empresário que existem poupanças reais disponíveis para projetos de longo prazo, quando na verdade não existem, porque ninguém poupou, alguém só imprimiu. O empresário acredita na mentira, inicia obras que jamais terminarão lucrativamente, contrata gente que terá que ser demitida, encomenda máquinas que ficarão paradas. Quando a verdade aparece, e ela sempre aparece, chamam de crise, de fatalidade, de externalidade, de qualquer coisa menos do que é: a consequência inevitável de mexer no preço do tempo. Quer dizer, o ciclo econômico não é uma doença misteriosa do capitalismo, é o sintoma de uma falsificação cometida por gente de gravata em prédios com colunas gregas.

Siga o dinheiro e você entenderá por que a fraude continua. Quem ganha com juros artificialmente baixos? O governo, que rola dívida mais barato. Os bancos, que captam quase de graça e emprestam caro. Os grandes devedores corporativos, que conseguem refinanciar pirâmides de alavancagem. Quem perde? O sujeito que poupa a vida inteira e vê o poder de compra evaporar, o aposentado que recebe em moeda derretida, o jovem que não consegue comprar casa porque o ativo virou refúgio de quem foge da impressora. A inflação é o imposto mais cruel já inventado, porque o pagador nem sabe que está pagando, e o cobrador pode fingir que é vítima do próprio crime.

Tem uma sabedoria antiga, dessas que as avós sabiam e que os doutores em economia desaprenderam, que diz que tempo é dinheiro. Estavam meio certas. Tempo é mais que dinheiro, porque dinheiro se imprime e tempo não. Toda civilização que prosperou de verdade entendeu isto: respeitou a poupança, honrou os contratos, manteve a moeda sólida, deixou as pessoas livres para fazerem seus próprios cálculos sobre adiar ou antecipar consumo. Toda civilização que decaiu fez o oposto. Aviltou a moeda, quebrou contratos pela inflação, tomou as decisões temporais no lugar dos cidadãos. Roma fez isso. Weimar fez isso. A Argentina fez isso. O Brasil já fez isso várias vezes e está se arrumando para fazer de novo, com nova roupagem e nova trilha sonora.

No fim, a lição é simples e dolorosa. Nenhum decreto cria uma hora a mais no dia. Nenhum subsídio devolve a década perdida. Nenhuma reforma desfaz a juventude consumida numa fila de repartição esperando autorização para viver. Quem mexe no preço do tempo está roubando vidas inteiras, e o pior é que faz isso sorrindo, com diploma na parede e entrevista marcada no jornal das oito. O resto é conversa para boi dormir.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.