O relatório da Highland Cabinetry divulgado este mês entrega em números frios o que qualquer pedreiro americano já sabia no osso: existem cidades inteiras onde o salário médio não paga uma casa de quatro quartos sem estourar o orçamento doméstico. São Francisco, Los Angeles, San Diego, Nova York, Boston, a lista engorda a cada trimestre. Não se trata de luxo, não se trata de mansão com piscina olímpica, trata-se da casa grande de classe média que gerações anteriores compravam com um salário só, deixando a esposa em casa e os filhos na escola pública da esquina. Essa casa, hoje, virou relíquia de museu.

Chamam isso de crise imobiliária, como se o preço dos tijolos tivesse subido sozinho por algum capricho da natureza. Mentira conveniente. O que subiu não foi o tijolo, foi a enxurrada de dólares despejada pelo banco central na última década e meia para financiar guerras, pacotes de estímulo, resgates de banco quebrado e festas fiscais de ambos os partidos. Quando o governo imprime, os ativos reais incham primeiro, e imóvel é o ativo real mais visível do planeta. O trabalhador recebe o salário depreciado, o dono de dois imóveis vê o patrimônio triplicar, e depois vem alguém explicar na televisão que a culpa é da ganância dos construtores.

Siga o dinheiro e o enredo se ilumina. Cada nova regra de zoneamento que impede construir em altura beneficia quem já comprou. Cada subsídio habitacional travestido de bondade social vira cartório de renda para incorporador amigo do prefeito. Cada juro artificialmente baixo durante uma década inflou hipotecas que hoje aprisionam famílias em contratos de trinta anos ao valor distorcido do pico da bolha. Os mesmos políticos que choram pela crise de moradia votaram, um por um, as leis que transformaram o solo urbano americano em commodity financeira. Coincidência, dizem eles. Coincidência reincidente é projeto.

E aqui entra a parte que a imprensa econômica treme de medo de escrever. A classe média americana está sendo deliberadamente empurrada para o aluguel perpétuo, para o apartamento de cinquenta metros, para a dependência vitalícia de landlords corporativos que compram bairros inteiros em leilão com dinheiro barato que o cidadão comum nunca viu a cor. Chama-se isso de modernização, de densificação, de sustentabilidade urbana. No fundo, é a liquidação silenciosa da propriedade distribuída, substituída pela propriedade concentrada em poucas mãos de fundos de investimento. Quem não tem casa não tem raiz, e quem não tem raiz aceita qualquer coisa do patrão e do Estado.

O mais cruel é o silêncio sobre o que não se vê. Vê-se o apartamento bonito que o jovem casal consegue alugar com dois salários. Não se vê o quintal que os filhos deles não terão, a oficina que o pai não montará, a horta que a mãe não plantará, a festa de aniversário sem espaço para convidar a família inteira. Vê-se o programa federal de assistência ao primeiro comprador. Não se vê que o próprio programa puxa o preço para cima, anulando o benefício antes do cheque compensar. Toda política pública de moradia nos últimos quarenta anos fez o mesmo: empurrou o preço, vendeu solução, culpou o mercado pelo resultado.

A casa grande não sumiu porque os americanos ficaram pobres, ficou inacessível porque o dinheiro ficou doente. Consertar isso não passa por mais subsídio, mais regulação ou mais comitê de especialistas reunidos em Washington. Passa por uma coisa simples que ninguém no poder quer dizer em voz alta: parar de imprimir, soltar o solo urbano, deixar construir e aceitar que a prosperidade não é um decreto, é uma consequência de deixar o povo em paz para trabalhar, poupar e erguer paredes. Enquanto isso não acontecer, a casa grande continuará sendo o que virou agora, um cenário de filme antigo que os netos assistirão sem entender por que os avós moravam tão bem sendo tão comuns.

Com informações da ZeroHedge. A análise e opinião são do O Algoz.