A cena beira o cômico, não fosse trágica. A Artisan, startup que se vende como pioneira em substituir funcionários humanos por agentes de inteligência artificial, resolveu ilustrar suas campanhas publicitárias com o quadrinho mais reconhecível da internet contemporânea, aquele cãozinho amarelo sentado numa sala em chamas dizendo que está tudo bem. Só esqueceu de um detalhe minúsculo, irrelevante, quase pedante. O desenho tem autor. Tem dono. Tem nome e sobrenome. Chama se KC Green, vive de fazer quadrinhos, e não recebeu um centavo nem um pedido de licença.
O autor, ao descobrir o uso indevido, fez o que qualquer artista com espinha dorsal faria. Notificou, pressionou, e a empresa, encurralada, recuou. Retirou os anúncios, sentou para negociar, fechou acordo. A imprensa especializada noticiou o desfecho com a frieza burocrática de sempre, como se o episódio fosse uma curiosidade jurídica, uma nota de rodapé na euforia da nova economia. Não é. É o sintoma exato da doença que assola toda essa indústria de palco e PowerPoint.
Há algo profundamente revelador no fato de uma empresa que promete robôs trabalhadores para substituir humanos ter sido pega usando o trabalho humano alheio sem pagar. A lógica é a mesma das grandes plataformas que treinam seus modelos de linguagem em bibliotecas inteiras de livros pirateados, fotografias roubadas, artigos científicos sequestrados, e depois se apresentam como os novos donos do conhecimento humano. Pegam de graça o que séculos de civilização produziram, embrulham num invólucro de marketing, e vendem de volta para nós. O ciclo é antigo, só os figurinos mudam.
Repare na ironia digna de comédia grega. O meme escolhido pela startup mostra justamente um personagem cercado pelo desastre fingindo que nada está acontecendo. É exatamente o retrato dessa nova safra de empresas, que ardem em rodadas de captação, queimam dinheiro alheio, prometem revolucionar tudo, e fingem que a propriedade intelectual, a ética e o trabalho criativo são detalhes operacionais. Tudo bem, dizem elas sentadas no incêndio que ajudaram a atear. Tudo bem.
O caso de KC Green deveria virar manual. Não porque o sujeito conseguiu um acordo, isso é o mínimo. Mas porque escancarou que o artista solitário, com seus quadrinhos modestos publicados na internet, tem mais direitos morais sobre aquilo que criou do que qualquer corporação bilionária terá jamais sobre os modelos treinados em material roubado. A criação é um ato humano, profundamente humano, e nenhuma quantidade de servidores agrupados em galpões refrigerados muda essa realidade fundamental. Quem cria, manda. Quem pega sem pedir, paga.
Que sirva de aviso aos pequenos criadores brasileiros, esses ilustradores, escritores, músicos e fotógrafos que acham que não têm o que fazer contra o rolo compressor da nova economia digital. Têm sim. A lei, mesmo nas suas versões mais frouxas, ainda reconhece autoria. E a internet, paradoxalmente, é a melhor testemunha de quem fez o quê primeiro. O cachorrinho do incêndio sobreviveu às chamas e ainda recebeu cachê. Há esperança.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.