Sábado em Kuala Lumpur, milhares de malaios ocuparam o centro da capital pedindo uma coisa simples: que o sujeito encarregado de combater a corrupção seja, ele mesmo, investigado. Azam Baki, chefe da Comissão Anticorrupção da Malásia, está de saída do cargo arrastando atrás de si uma nuvem de denúncias que o governo se recusa a dissipar. A multidão quer uma comissão real de inquérito. O governo finge que não ouve. E a cena, vista de longe, tem aquele sabor antigo de farsa institucional que se repete em todo continente onde o Estado cresceu mais rápido que a vergonha.

Há uma ironia que precisa ser dita sem rodeios. Toda vez que um país cria uma agência poderosa para caçar corruptos, descobre, anos depois, que a agência virou um feudo, o feudo virou um caixa, e o caixa virou imune ao escrutínio que ela mesma deveria impor aos outros. Não é acidente, é regra. Concentre poder de investigação, sigilo de operação e orçamento garantido em uma única estrutura, blinde-a com discurso moralista, e o resultado, em qualquer latitude, é o mesmo: o caçador descobre que pode caçar seletivamente, e quem decide a seleção decide quem é honesto e quem é réu.

Olha, a Malásia não inventou esse arranjo, apenas o copiou. É o mesmo modelo que exportou o escândalo 1MDB, aquele em que bilhões evaporaram por entre os dedos de gente muito bem vestida e muito bem conectada, com bancos suíços, iates e quadros de Picasso pelo caminho. A lição daquele episódio deveria ter sido óbvia: o problema nunca foi falta de agência, foi excesso de Estado. Onde o governo administra contratos, fundos soberanos, monopólios e licenças, sempre haverá fila de espertos para abocanhar a fatia, e nenhuma comissão anticorrupção, por mais bem intencionada que nasça, sobreviverá intacta ao banquete.

Siga o dinheiro, é o conselho mais barato e o mais ignorado. Azam Baki foi acusado, anos atrás, de possuir quantidades suspeitas de ações em empresas listadas, episódio que ele próprio explicou como "transferência familiar", versão que satisfez o governo e indignou o resto do planeta. Saiu impune então, sai agora pela porta da frente, e o Parlamento malaio, que poderia ter aberto a auditoria que a rua pede, preferiu o silêncio cúmplice de quem sabe que abrir uma gaveta significa abrir todas. É sempre assim. A solidariedade entre os que ocupam cadeiras é mais forte que qualquer compromisso com o contribuinte que paga a cadeira.

Quer dizer, há algo de comovente na multidão que se junta sob sol forte para pedir o óbvio: que quem fiscaliza seja fiscalizado. Mas há também algo de trágico, porque a multidão ainda acredita que o remédio para os abusos da burocracia é mais uma camada de burocracia, mais uma comissão, mais um órgão, mais um conselho. O remédio verdadeiro seria outro: encolher o tamanho do que se pode roubar. Onde o Estado controla pouco, há pouco para corromper. Onde controla tudo, a corrupção deixa de ser desvio e passa a ser função. Cada nova agência criada para limpar o sistema acaba, com o tempo, virando mais uma sala onde se decide quem leva o quê.

O caso de Kuala Lumpur é só mais um capítulo de uma novela que se escreve em todos os idiomas. Brasília tem suas versões, Buenos Aires tem as suas, Pretória e Manila também. A receita é universal porque o erro é universal: confiar a integridade do dinheiro público a quem tem acesso ilimitado a ele e blindagem ilimitada contra quem o questiona. Os malaios que foram para a rua sábado merecem respeito, mas merecem também uma verdade desconfortável. Enquanto a pergunta for "quem investiga o investigador?", a resposta correta nunca virá, porque a pergunta certa é outra: por que diabos esse investigador tem tanto poder sobre vocês?

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.