O número saiu, o release foi distribuído, os analistas de banco fizeram cara de surpresa ensaiada e a manchete se acomodou no canto da tela: receita acima do esperado, lucro por ação abaixo. Quer dizer, a empresa colocou mais dinheiro na boca do funil e tirou menos dinheiro do outro lado. Em qualquer padaria do interior, isso teria um nome curto e feio. Na bolsa, vira "resultado misto", essa expressão maravilhosa que serve para dizer nada enquanto se finge dizer alguma coisa.
Olha, ninguém que acompanhe minimamente o setor de telecomunicações brasileiro deveria se chocar com essa contabilidade que entrega faturamento e esconde rentabilidade. A TIM, como qualquer operadora que opera neste país, vive dentro de uma jaula regulatória costurada por décadas de Anatel, decisões judiciais erráticas, ICMS variando de estado para estado, Fistel, Fust, Funttel e toda uma sopa de letrinhas que existe para financiar gastança alheia disfarçada de "universalização". Cada real que entra pela porta da frente passa por uma comitiva de pedágios antes de chegar ao acionista. O espanto do analista é fingido; o boleto do consumidor é real.
Me diz uma coisa: por que uma das maiores economias do Ocidente tem oligopólio de três operadoras dividindo o mapa como cardeais medievais repartindo dioceses? Não foi o mercado que escolheu esse arranjo. Foi o Estado, via leilões de espectro caríssimos, regras de entrada proibitivas e um ambiente tributário que tornaria a Suécia corada de inveja. O resultado é previsível para quem entende que monopólio outorgado é sempre filho do regulador, nunca da concorrência. E quando o regulador cobra caro pela licença, alguém precisa pagar a conta. Sempre o mesmo alguém. Sempre você.
A parte engraçada, se é que existe graça em fatura de celular, é que a receita subiu não porque a TIM se reinventou ou descobriu algum oceano azul tecnológico. Subiu porque a inflação acumulada de tarifa, o reajuste contratual e a migração forçada para planos pós-pagos puxaram o ticket médio. Em outras palavras, você está pagando mais pelo mesmo serviço, e isso aparece como "performance comercial" no relatório. A inflação devorando o seu salário virou KPI positivo na apresentação para investidores. Curioso como o mesmo fenômeno é tragédia macroeconômica no jornal e conquista corporativa no earnings call.
E o lucro por ação que decepcionou? Custo financeiro, depreciação acelerada de infraestrutura 5G que ninguém pediu na velocidade que foi imposta, e a eterna sangria de processos trabalhistas e regulatórios que toda tele carrega como Sísifo carregava a pedra. A empresa entrega receita porque o consumidor não tem escolha. Entrega menos lucro porque o Estado, sócio oculto de toda operadora, também não larga o osso. No fim do trimestre, o capital produtivo apanha de cima e de baixo, e o investidor descobre que comprou ação de uma concessionária de pedágio digital, não de uma empresa de tecnologia.
O recado do balanço, para quem sabe ler além da planilha, é o de sempre neste país onde tudo que é estratégico passa pela mão pesada do regulador: você pode crescer em receita, pode aumentar base de clientes, pode até dominar mercado, mas a rentabilidade fica reservada para quem está do outro lado do balcão, onde se cobra licença, se arrecada tributo e se aprova reajuste. O acionista da TIM aprendeu hoje uma lição que custa caro e se repete a cada trimestre. Quem manda na sua empresa não é o conselho. É o decreto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.