O TMX Group, que opera as bolsas canadenses, entregou números acima do consenso no primeiro trimestre de 2026 e o mercado bateu palmas como criança em circo. Receita em alta, volume em alta, derivativos em alta, dados e analytics em alta. Tudo lindo no relatório, tudo aplaudido pelos comentaristas de plantão, e ninguém para um instante para perguntar a coisa mais elementar: por que diabos uma bolsa de valores está lucrando rios de dinheiro num momento em que a economia real do Canadá rasteja, com produtividade estagnada há uma década e investimento em capital fixo abaixo da média histórica?
A resposta não está no relatório trimestral, está no que o relatório não mostra. Quando o banco central mantém juros altos para combater a inflação que ele mesmo fabricou imprimindo dinheiro durante anos, o capital produtivo congela. Ninguém com juízo monta uma fábrica nova com custo de capital de dois dígitos e demanda final incerta. Mas o dinheiro não evapora; ele migra. Sai do galpão e vai para o pregão. Sai do projeto de longo prazo e vai para a especulação de curto prazo. Sai do empreendedor e vai para o intermediário. E adivinhem quem cobra pedágio em cada movimento desses? Exatamente, a bolsa.
É por isso que o segmento de derivativos da TMX explodiu, é por isso que o volume de negociação cresce mesmo com economia patinando, é por isso que receita de dados e analytics dispara. Quanto mais incerteza macroeconômica o Estado fabrica, mais gente precisa se proteger, mais hedge, mais swap, mais opção, mais contrato futuro. A volatilidade que o burocrata produz lá em cima vira receita garantida aqui embaixo, no balcão da bolsa. Quer dizer, o operador da infraestrutura financeira é o único que ganha dos dois lados: ganha quando sobe e ganha quando desce, ganha quando o investidor aposta e ganha quando o investidor se protege da própria aposta.
Olha, isto não é crítica à TMX, que está apenas fazendo o que toda empresa privada deveria fazer, que é prestar um serviço e cobrar por ele. A crítica é ao arranjo que transformou a intermediação financeira no setor mais lucrativo de uma economia desenvolvida enquanto a indústria, a manufatura e o pequeno comércio agonizam sob o peso da regulação, da tributação e do crédito caro. Há algo profundamente errado quando a empresa que organiza o cassino lucra mais do que as empresas listadas dentro do cassino, e há algo ainda mais errado quando ninguém na imprensa econômica considera isso digno de uma única pergunta desconfortável.
Me diz uma coisa, que tipo de civilização é essa em que a maior parte do talento, do capital e da energia jovem se direciona para mover papel eletrônico de uma conta para outra em vez de produzir bens e serviços tangíveis? Não é coincidência, não é acaso, não é fenômeno natural. É o resultado direto de décadas de política monetária frouxa seguida de aperto súbito, de regulação que sufoca quem produz e privilegia quem intermedia, de um sistema fiscal que pune o lucro operacional e premia o ganho de capital. Os números da TMX são a fotografia perfeita disso, e o aplauso dos analistas é a confissão involuntária de que a inversão de prioridades já virou paisagem normal.
O lucro da bolsa não é problema, mas que ele cresça enquanto a economia real míngua é o sintoma de um país que esqueceu o que produz riqueza de verdade, e nenhum trimestre brilhante de uma operadora de mercado vai consertar isso. Bolsa em festa com economia em coma é cortejo fúnebre vestido de carnaval.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.