A Golar LNG sobe ao palco dos resultados trimestrais carregando uma narrativa que os analistas adoram repetir sem entender, a do "boom do FLNG", as unidades flutuantes de liquefação de gás natural que se tornaram, da noite para o dia, o ativo mais cobiçado do setor energético global. A revisão estratégica em curso, os contratos de longo prazo, o pipeline de novos projetos, tudo isso virou pauta de balanço como se fosse mérito da gestão. Não é. É a fatura, finalmente chegando, de duas décadas de política energética europeia montada sobre slogans e sobre a fantasia de que se podia desligar carvão, nuclear e gás russo ao mesmo tempo sem nada explodir.

Quer dizer, o que se vê no balanço da Golar é o preço do gás congelado em contratos plurianuais, é a margem operacional gorda, é o múltiplo expandindo. O que não se vê, e ninguém quer enxergar, é o consumidor alemão pagando três vezes mais pela conta de luz para sustentar a margem que o investidor americano comemora no relatório trimestral. A riqueza não foi criada do nada, foi transferida. Cada navio FLNG ancorado num porto europeu é um monumento de aço flutuante à arrogância de burocratas que decidiram, em gabinetes climatizados, qual deveria ser a matriz energética de meio bilhão de pessoas.

Olha, a história aqui é a velha de sempre, só que com casco de aço e tanque criogênico. Governos europeus passaram anos demonizando o gás natural doméstico, vetando fracking, fechando reatores nucleares perfeitamente funcionais e jurando que o vento e o sol resolveriam tudo. Quando a realidade bateu na porta em 2022, com o suprimento russo cortado e o inverno se aproximando, descobriram que a física continua existindo independente de manifesto político. Aí veio a corrida desesperada pelo GNL americano, pelo qatari, pelo de qualquer um, ao preço que fosse, no terminal flutuante que estivesse disponível. A Golar, que tinha os ativos certos no momento certo, virou queridinha do mercado por um motivo simples, era uma das poucas que não tinha aderido à religião do net zero a ponto de parar de investir em hidrocarbonetos.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que isso é mercado livre operando? O preço do gás liquefeito que sustenta o lucro da Golar é definido por uma cadeia de intervenções que começa em Bruxelas, passa por Washington, pelos subsídios da Inflation Reduction Act, pelos vetos do BEI a projetos de gás em países pobres, pelas garantias soberanas a terminais europeus, e termina no contrato take or pay que a empresa fecha com uma utility alemã que só consegue honrar o compromisso porque o contribuinte germânico está bancando a diferença via tarifa. O capitalismo de compadrio energético global é tão entranhado que virou paisagem, e o investidor de fundo passivo nem percebe que está colhendo dividendo de um arranjo político, não de uma vantagem produtiva.

A revisão estratégica da companhia, anunciada com o tom de quem está prestes a destravar valor para o acionista, é na verdade uma jogada para se posicionar antes que o pêndulo volte. Porque ele sempre volta. Quando a Europa finalmente acordar para o fato de que pagou caro demais por escolher inimigos errados, quando o gás de xisto americano encontrar concorrência argentina, brasileira, africana, quando os subsídios verdes começarem a ser questionados pelos próprios eleitores cansados de conta cara, o múltiplo da Golar volta a se comprimir e os mesmos analistas que hoje recomendam compra vão escrever que sempre desconfiaram do setor. É o ciclo. Não inventaram nada, só esqueceram o último.

Os resultados vão sair, os números provavelmente serão bons, o mercado vai reagir em alguma direção, e ninguém vai dizer em voz alta a única coisa que importa, que o boom do FLNG é a confissão pública de que a transição energética europeia foi um desastre planejado, e que a fatura desse desastre está sendo paga pelo trabalhador comum nos dois lados do Atlântico, enquanto detentores de cotas em fundos especializados em infraestrutura energética colhem o spread. Toda crise política gera vencedores de plantão. O problema é confundir o vencedor da loteria com o gênio dos investimentos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.