O estudo é real, a conclusão é razoável e os dados apontam na direção que qualquer pessoa com mais de quarenta anos já suspeitava pelo simples método de observação: duas a três xícaras de café por dia estão associadas a menor risco de ansiedade e depressão ao longo do tempo. Nenhuma surpresa. O surpreendente, para quem ainda se surpreende com esse tipo de coisa, é que precisamos de um estudo para dizer isto em voz alta com credibilidade institucional. A humanidade descobriu o café no século XV. Os etíopes já sabiam disso antes de Colombo saber que a América existia. Mas aparentemente esse conhecimento acumulado ao longo de seiscentos anos de consumo voluntário e espontâneo de uma bebida que o mundo inteiro adotou sem decreto não era suficiente. Precisava de publicação científica revisada por pares para que o cidadão médio pudesse tomar o próprio café sem culpa.

Há algo profundamente revelador nesse mecanismo. Durante décadas, o mesmo establishment que agora valida o café o cercou de advertências, limitações e suspeitas. Era hipertensivo. Era ansiolítico às avessas. Era vício disfarçado de hábito cultural. Os mesmos especialistas que hoje assinam estudos favoráveis ao café são herdeiros de uma tradição científica que transformou o ovo em vilão por trinta anos e depois o reabilitou sem o menor constrangimento, que demonizou a gordura saturada com a mesma pompa com que depois a absolveu, que inventou a pirâmide alimentar e depois a demoliu. A ciência nutricional em particular tem um histórico de coerência que faria corar qualquer analista que se preze. Mas a imprensa reproduz cada novo estudo como se fosse a palavra final, e o ciclo recomeça.

O ponto não é desacreditar a pesquisa. O ponto é perguntar por que o cidadão precisa de permissão científica para fazer o que o seu bisavô fazia sem hesitar. Existe uma tradição viva, orgânica, transmitida de geração em geração, que codifica conhecimento sem precisar de metodologia formal. As pessoas bebiam chá de camomila para dormir antes de qualquer ensaio clínico. Bebiam caldo de galinha para se recuperar de gripe antes de a ciência isolar os compostos ativos. Caminhavam, descansavam, comiam com moderação, passavam tempo ao ar livre. Não porque um comitê de especialistas recomendou, mas porque a experiência acumulada de civilizações inteiras havia destilado isso em hábito, em costume, em sabedoria comum. O mercado de preferências humanas, funcionando livremente por séculos, chegou ao café muito antes de qualquer financiamento de pesquisa. E chegou com acerto.

O que incomoda, de verdade, é a cadeia que esse tipo de descoberta inevitavelmente aciona. Quando a ciência "confirma" algo, o próximo passo é a recomendação. Quando há recomendação, surge a "quantidade ideal". Quando há quantidade ideal, alguém começa a pensar em como garantir que as pessoas consumam essa quantidade ideal, nem mais nem menos. A expressão "quantidade ideal de café" carrega embutida uma cosmologia inteira: a de que existe uma autoridade competente para definir o que é ideal para você, que você provavelmente não chegaria a essa conclusão sozinho, e que o papel das instituições é orientar seu comportamento em direção ao que foi tecnicamente validado. É uma lógica de tutor e tutelado. Benigna na intenção, sufocante no efeito.

Nenhuma xícara de café que você tomou livremente, porque queria, porque gostava, porque fazia parte da sua manhã e da sua identidade, precisava de validação externa para ser boa. O que a pesquisa revela, involuntariamente, é que o mercado de escolhas humanas funciona. Funciona quando não é perturbado por campanhas de pânico, por recomendações contraditórias, por nutricionistas de plantão que mudam de opinião a cada congresso. O ser humano, deixado em paz para fazer suas escolhas dentro de uma tradição que funciona, geralmente acerta. Às vezes erra. Mas erra com autonomia, o que é infinitamente preferível a acertar por obediência. A diferença entre um homem livre que bebe café porque quer e um tutelado que bebe café porque o estudo recomendou pode parecer sutil. Não é.

Então tome seu café. Duas, três xícaras, como a sua avó tomava antes que alguém inventasse a indústria do bem-estar para complicar o que o senso comum havia simplificado. E da próxima vez que um estudo chegar dizendo que algo que você sempre fez é afinal saudável, permita-se o pequeno prazer de pensar que você já sabia, que todo mundo já sabia, e que o único que não sabia era o especialista que precisou de verba, de laboratório e de três anos de coleta de dados para alcançar o bar da esquina.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.