Olha que coisa curiosa. Um diretor sênior do Banco da Coreia veio a público dizer, com aquele ar grave de quem descobriu a pólvora na manhã de terça, que talvez seja o momento de considerar uma alta de juros. O motivo? A economia não está desacelerando o quanto eles previram, e a inflação está subindo mais do que eles projetaram. Quer dizer, os mesmos profetas que erraram o cenário inteiro agora pedem licença para ajustar o leme do navio que eles próprios encalharam. E o mercado, devidamente domesticado, recebe a notícia como se fosse sabedoria oracular, e não confissão tardia de incompetência.

Me diz uma coisa, que mistério é esse de a inflação "exceder a previsão"? Não há mistério algum. Quando se expande crédito artificialmente, quando se mantém juros abaixo do que o mercado livremente determinaria, quando se financia gastança pública com a impressora ligada nos fundos da casa, o resultado é matematicamente inevitável. A conta sempre chega. Pode demorar seis meses, pode demorar dois anos, mas chega. E chega na forma de preços subindo no supermercado, no aluguel, no botijão de gás, naquele cafezinho da esquina que de repente custa o dobro sem ninguém ter avisado o trabalhador coreano que ele acabou de ficar mais pobre.

O truque dos bancos centrais, em qualquer latitude, é sempre o mesmo. Primeiro abrem a torneira para "estimular a atividade", e os jornais celebram o boom. Depois fecham a torneira para "combater a inflação", e os jornais celebram a prudência. No meio do caminho, fica a destruição silenciosa da poupança alheia, a redistribuição de riqueza dos que produzem para os que estão perto da fonte do dinheiro novo, e a miséria das classes médias que veem suas economias evaporarem enquanto o governo posa de salvador da pátria. É o assalto mais sofisticado já inventado, porque a vítima agradece e ainda vota no assaltante.

E note bem o que está acontecendo na Coreia, porque é universal. O sujeito não diz "erramos a previsão da inflação porque expandimos demais a base monetária nos últimos anos". Ele diz que a inflação "deve exceder a projeção", como se a inflação fosse um fenômeno meteorológico, uma chuva inesperada, algo que cai do céu sem causa identificável. É a velha tática de transformar decisão humana em fato da natureza. Ninguém errou, ninguém é responsável, apenas a economia, essa entidade misteriosa, decidiu se comportar mal. Convenientemente, a solução também não envolve admitir culpa, envolve cobrar mais caro o crédito de quem precisa, ou seja, transferir o custo do erro do planejador para o pagador de boletos.

Siga o dinheiro e você entende o jogo. Quem se beneficiou dos juros baixos? Os grandes conglomerados endividados, os bancos com acesso privilegiado à liquidez, o Estado que rolava sua dívida a preço de banana. Quem vai pagar o aperto agora? O pequeno empresário que tomou empréstimo para o capital de giro, a família com financiamento imobiliário pós-fixado, o aposentado cujo poder de compra já foi corroído antes mesmo da correção chegar. É sempre assim, em Seul, em Brasília, em Frankfurt. O ciclo monetário é uma máquina de transferir riqueza dos distantes da impressora para os próximos dela, e depois cobrar a diferença dos primeiros para fingir que está consertando.

O remédio, claro, nunca está em discussão. O remédio seria amarrar a mão do banco central, ancorar a moeda em algo que não dependa do humor de comitês, deixar que o juro seja descoberto pelo encontro real entre poupadores e tomadores, e não decretado por um punhado de doutores num salão climatizado. Mas isso retiraria o brinquedo favorito da elite financeira global, e portanto não está no cardápio. O que está no cardápio é mais do mesmo, com nome diferente, e a promessa solene de que dessa vez vai funcionar. Não vai. Nunca vai. E quando não funcionar, virão pedir paciência outra vez, enquanto a sua paciência já foi confiscada via inflação faz tempo.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.