Existe algo deliciosamente ingênuo em uma indústria que fatura bilhões e ainda acredita que pode exibir um trailer para uma sala cheia de jornalistas e manter o conteúdo em segredo. A Capcom, que em 2026 reconquistou o trono do terror interativo com Resident Evil: Requiem, resolveu apresentar o primeiro trailer do novo filme da franquia numa conferência a portas fechadas, como se estivéssemos em 1997 e a internet fosse um luxo de poucos. O resultado foi previsível para qualquer pessoa com dois neurônios funcionando: as descrições do trailer vazaram antes mesmo de os convidados encontrarem a saída do evento.

O que se sabe até agora é que o filme aposta em zumbis perseguidores no telhado, uma sequência que, segundo os relatos, remete ao tipo de tensão visceral que fez Requiem ser o jogo mais elogiado do ano. O protagonista, cujo nome ainda não foi confirmado oficialmente, parece ter sido moldado para agradar quem cresceu jogando os títulos clássicos, não a plateia de pipoca que só conhece a franquia pelos filmes anteriores, aqueles mesmos que trataram o material original com o mesmo respeito que um açougueiro trata uma obra de arte renascentista. A grande questão é se Hollywood finalmente entendeu que adaptação não significa destruição, ou se estamos diante de mais uma tentativa de transformar ouro em latão pintado.

A história das adaptações de videogame para cinema é, com raras exceções, um cemitério de boas intenções e péssimas execuções. Durante décadas, estúdios compraram os direitos de franquias adoradas por milhões de jogadores e entregaram produtos que pareciam feitos por gente que nunca encostou num controle. Os filmes anteriores de Resident Evil, com todo o respeito que merecem como entretenimento descartável, tinham tanto a ver com o jogo original quanto um hambúrguer de aeroporto tem a ver com gastronomia. Venderam muito ingresso, é verdade, mas deixaram no público aquela sensação amarga de quem comprou gato por lebre e só percebeu quando já tinha pago.

O que mudou agora, e é preciso reconhecer, é que o sucesso estrondoso de Requiem obrigou todo mundo a levar a franquia a sério de novo. Quando um jogo vende dezenas de milhões de cópias e aparece em toda lista de melhor do ano, até o executivo mais desconectado de Hollywood percebe que o material merece tratamento digno. É a velha lógica: o dinheiro fala mais alto que qualquer consultor criativo. A Capcom, que por anos licenciou sua propriedade intelectual como quem vende terreno em beira de estrada, parece ter finalmente entendido que proteger a integridade da marca é mais lucrativo do que aceitar qualquer cheque que apareça.

O trailer a portas fechadas, com estreia do filme prevista para setembro, mostra que a estratégia de marketing aposta no mistério controlado, aquele velho truque de mostrar pouco para gerar muita conversa. Funciona quando o produto é bom; vira piada quando não é. Os zumbis no telhado, pela descrição, sugerem um filme que entendeu algo fundamental sobre o terror: o medo não vem do monstro em si, vem da impossibilidade de escapar. É a clausura, não a criatura, que gela o sangue. Se o filme conseguir traduzir essa mecânica de jogo para a linguagem cinematográfica sem transformar tudo numa sequência genérica de ação com explosões e frases de efeito, teremos algo que vale a pena assistir. Se não conseguir, teremos mais um filme para esquecer antes de dezembro. O público, ao contrário dos executivos, não perdoa duas vezes.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.