A notícia chega embrulhada no papel celofane de sempre: empresa de capital aberto entrega lucro por ação acima do consenso dos analistas, ações reagem, transcrição da teleconferência vira matéria de portal financeiro, e o leitor desavisado conclui que está diante de um caso exemplar de capitalismo competitivo. Olha, antes de bater palma, convém abrir o capô da máquina. A American Public Education é a holding por trás da American Military University e da Hondros College of Nursing, e o modelo de negócio dessas instituições não se sustenta numa praça pública onde o consumidor decide com seu próprio dinheiro. Sustenta-se num cano que sai direto do Tesouro americano, passa pelo Department of Veterans Affairs, pelo Department of Defense via Tuition Assistance, e desemboca no balanço trimestral que hoje todo mundo aplaude.
Quer dizer, quando o governo decide que ensino superior é direito universal, que militar precisa estudar, que enfermeiro deve ser formado em massa, e despeja bilhões via Pell Grants, GI Bill e empréstimos federais sem análise séria de crédito, o que acontece com o preço? Sobe. O que acontece com a oferta? Multiplica. E o que acontece com a qualidade? Pergunte ao empregador americano que recebe currículo de bacharel sem saber redigir um parágrafo. O dinheiro fácil cria uma indústria inteira de cursos de duvidosa serventia, vendidos a um público cativo que não está pagando do bolso, e administrados por executivos que sabem perfeitamente onde está a teta. Lucro por ação acima do consenso não é virtude empresarial nesse caso, é capacidade de ordenhar com método.
Siga o dinheiro e a coreografia fica óbvia. O contribuinte da Pensilvânia financia o empréstimo do soldado que vai estudar online numa universidade privada cujos acionistas embolsam o dividendo. O soldado talvez aprenda algo, talvez não, mas a dívida federal cresce, o diploma se multiplica, e o salário médio do graduado americano segue patinando há quinze anos enquanto o custo da mensalidade dobra. Esse é o ciclo da educação subsidiada: cada dólar injetado pelo governo para tornar o ensino mais acessível encarece o ensino para todo mundo, inclusive para quem paga do próprio bolso. A janela quebrada do programa social cria emprego para o vidraceiro acionista da APEI e deixa invisível o vidraceiro que faliu porque o cliente teve que pagar imposto a mais.
Há também a outra ponta do esquema, que ninguém comenta nas teleconferências. As barreiras regulatórias do setor educacional americano são tão pesadas, exigem acreditações tão caras, certificações tão labirínticas, que pequenas escolas locais, comunitárias, religiosas, ágeis, simplesmente não conseguem competir. Quem aguenta o custo de compliance é o conglomerado de capital aberto com departamento jurídico do tamanho de uma faculdade. A regulação que se vendeu como proteção ao aluno virou trincheira do oligopólio. E o burocrata do Department of Education, com sua planilha distante e sua ignorância olímpica sobre o que de fato se passa numa sala de aula de Cleveland, segue achando que organiza o mercado quando na verdade decide quem ganha e quem perde.
O resultado é uma fábrica de diplomas que aparece nos relatórios trimestrais como caso de sucesso e na vida real como sintoma de decadência. Crescimento do lucro por ação num setor estruturalmente dependente de transferência fiscal não é prova de eficiência, é prova de captura. Se amanhã o Congresso americano cortasse pela metade os subsídios federais ao ensino superior, metade dessas ações viraria pó antes do almoço, e a outra metade descobriria, pela primeira vez em décadas, o que é ter que convencer um cliente real a tirar dinheiro do próprio bolso. Existe um nome técnico para empresa que só prospera enquanto o governo abre a torneira, e esse nome não é capitalismo.
Comemorar o trimestre da APEI sem perguntar de onde vem o combustível é como elogiar a engorda do porco sem perguntar quem está pagando a ração. O analista de Wall Street não pergunta porque a comissão dele depende de não perguntar. O jornalista financeiro não pergunta porque o release veio pronto. Mas quem olha o mecanismo por inteiro vê o que importa: o lucro privado existe, é real, vai para a conta de alguém, e a conta da festa fica com o sujeito anônimo que recebe holerite, paga imposto e nunca pisou numa universidade. Não existe almoço grátis, existe almoço cuja conta foi terceirizada para quem não foi convidado para a mesa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.