Olha, virou rotina. Toda transcrição de resultados de companhia minimamente exposta a data centers, fibra ótica ou energia para servidores agora vem com a mesma cartilha: cita-se a inteligência artificial três vezes por parágrafo, o gráfico sobe, o analista de banco bate palma, e ninguém pergunta o óbvio. A Infratil, holding neozelandesa que opera infraestrutura digital e energética, anuncia crescimento no segundo semestre de 2026 atribuído à demanda por capacidade computacional ligada à IA, e a manchete corre o mundo como se a empresa tivesse descoberto o fogo. Quer dizer, descobriram que alugar galpão refrigerado com tomada robusta dá dinheiro quando o mundo inteiro está com febre de GPU. Parabéns pelo óbvio.
O ponto que ninguém quer enxergar é que esse boom não nasceu do mérito empresarial puro, nem de inovação genuína da Infratil ou de qualquer outra. Ele nasceu de oceanos de liquidez despejados pelos bancos centrais desde 2020, de subsídios bilionários para "transição energética" e "soberania digital", e de uma corrida especulativa que faz a bolha das pontocom dos anos noventa parecer um clube de poupança paroquial. Quando o crédito é artificialmente barato e o governo carimba qualquer projeto que mencione semicondutor como "estratégico", surge magicamente uma indústria inteira de empresas cuja principal competência é estar no lugar certo na hora em que o dinheiro impresso procura abrigo. Isso não é capitalismo, isso é coreografia.
Vale seguir o dinheiro. Quem está pagando os contratos polpudos de capacidade computacional que sustentam o resultado da Infratil? Em última instância, fundos de hyperscalers que captam a juros suprimidos, governos que subsidiam infraestrutura digital com dinheiro de contribuinte, e investidores institucionais que precisam estacionar trilhões em algum lugar que renda mais que título soberano corroído pela inflação. O lucro reportado é real no balanço, claro. Mas o capital que financia a demanda foi fabricado, não acumulado. Há uma diferença civilizacional entre riqueza que veio de poupança genuína e riqueza que veio de prensa de papel, e essa diferença aparece no dia em que a maré recua.
O cidadão comum lê a manchete e pensa que está perdendo o bonde, corre para comprar ETF de infraestrutura de IA, paga ágio sobre ágio, e não percebe que está comprando o último degrau de uma escada cuja base já não existe. O que se vê é o gráfico subindo, o headline triunfalista, o CEO sorrindo na call. O que não se vê é a poupança da classe média sendo transferida silenciosamente, via inflação de ativos, para quem comprou em 2019 e agora distribui dividendos. Toda euforia setorial bancada por crédito barato termina do mesmo jeito desde o século dezessete, e a tulipa holandesa não sabia que era tulipa enquanto dobrava de preço por semana.
Há ainda o detalhe que a imprensa especializada finge não ver: empresas como a Infratil prosperam na exata medida em que o Estado define que IA é prioridade nacional, libera linhas de financiamento dedicadas, isenta tributos, acelera licenciamento ambiental para data center e cria reservas de mercado disfarçadas de "segurança soberana de dados". É o velho casamento entre balcão e burocracia, vestido de futurismo. Quem tem lobby em Wellington, em Bruxelas, em Brasília ou em Washington colhe o subsídio. Quem não tem, paga a conta no imposto, na conta de luz e na inflação. O nome técnico disso é capitalismo de compadrio, e o adjetivo "técnico" na frase é a única coisa nobre nele.
Não estou dizendo que a Infratil é fraude, nem que IA é moda passageira. A tecnologia é real, a demanda por computação é real, e haverá vencedores genuínos quando a poeira baixar. Estou dizendo que confundir bull market monetário com produtividade real é o erro que arruína gerações de investidores e que produz, ciclicamente, a crise que os mesmos bancos centrais usarão de pretexto para imprimir ainda mais. Quando o próximo balanço vier com a sigla mágica em letras garrafais, faça o exercício simples: pergunte de onde veio o dinheiro do cliente, quem garantiu o financiamento, quanto o contribuinte subsidiou, e o que sobra do "crescimento" quando se desconta a inflação real do dólar e do euro. O resultado costuma ser bem menos heroico do que o press release sugere.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.