A EnerSys publicou números do quarto trimestre fiscal de 2026 acima do que o consenso esperava, e o mercado fez o que o mercado faz quando vê margem operacional subindo: comprou a ação com sofreguidão. Receita firme, lucro por ação batendo estimativas, guidance otimista, executivos sorrindo na call. A imprensa financeira, sempre solícita, traduziu o evento como prova da resiliência da companhia e da força da chamada economia verde. Quer dizer, virou ritual: empresa do setor de baterias dá resultado, e o noticiário de Wall Street trata como se a mão invisível tivesse acabado de descer do céu com uma planilha do Excel.
Só que tem um detalhe que ninguém na CNBC quer destacar com a tipografia que merece. Uma fatia gorda da rentabilidade desse setor inteiro, da EnerSys aos concorrentes coreanos instalados no Texas, vem da carteira do contribuinte americano via os créditos fiscais do Inflation Reduction Act, aquele pacote bilionário aprovado em 2022 com nome orwelliano que prometia combater a inflação enquanto despejava centenas de bilhões em subsídios setoriais. Cada bateria industrial fabricada em solo americano vira um boleto pendurado no Tesouro. O lucro aparece no balanço da empresa, o custo aparece, com algum atraso, na inflação que o americano comum paga no supermercado e no juro que o Fed precisa manter alto para conter a farra fiscal.
Olha, é o velho truque do que se vê e do que não se vê. O que se vê é a fábrica nova em Greenville, os empregos sindicalizados, o CEO no telejornal explicando que a empresa está investindo no futuro. O que não se vê é o capital que deixou de ser alocado em outro lugar mais produtivo porque o governo decidiu, por canetada legislativa, que baterias de chumbo-ácido e lítio para empilhadeiras eram prioridade civilizacional. Não foi o consumidor escolhendo, não foi o empreendedor arriscando o próprio bolso. Foi um comitê em Washington decidindo quem ganha e quem perde, e depois cobrando o ingresso de quem nunca pediu para entrar no teatro.
O fenômeno tem nome técnico, embora a mídia financeira evite usá-lo: capitalismo de compadrio. A empresa eficiente e a empresa medíocre passam a competir não pelo favor do cliente, mas pelo favor do regulador. Lobistas viram ativo estratégico. Departamento de relações governamentais cresce mais que departamento de pesquisa. E o investidor minoritário, aquele coitado que comprou a ação acreditando que estava apostando em engenharia, descobre tarde demais que comprou cota de uma operação que depende mais do humor do Congresso do que do desempenho do produto. Quando o subsídio mudar, e ele sempre muda, o balanço descobre a gravidade.
Tem ainda o aspecto monetário que ninguém comenta em transcrição de resultados. Esses pacotes verdes foram pagos com dívida nova, e dívida nova em escala trilionária é gasolina jogada na fogueira inflacionária que ainda queima silenciosamente os salários reais americanos. A ação da EnerSys sobe em dólar nominal enquanto o dólar real perde mordida no mercado. O acionista comemora um ganho que o índice de preços, com paciência de relojoeiro, vai cobrar de volta nos próximos trimestres. É a alquimia financeira favorita dos bancos centrais modernos: fabricar a sensação de prosperidade enquanto se corrói o substrato que a torna possível.
Me diz uma coisa: se a transição energética fosse realmente o negócio do século que os ministros e secretários juram que é, precisaria de subsídio? Precisaria de tarifa protetora contra a bateria chinesa? Precisaria de crédito fiscal escalonado por dez anos para convencer o capital privado a aparecer? Mercado bom não precisa de muleta. Quando o aplauso vem acompanhado de cheque do governo, desconfie do aplauso, desconfie do cheque e, principalmente, desconfie de quem cantou na teleconferência sem mencionar de onde veio metade da margem. Lucro subsidiado não é lucro, é transferência. E toda transferência forçada, mais cedo ou mais tarde, encontra a fatura no correio de quem não foi convidado para a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.