Uma fabricante de equipamentos para salas de cinema, faturamento beirando casas decimais no oceano da bolsa americana, vem a público celebrar que suas margens brutas melhoraram no terceiro trimestre fiscal de 2026. Olha, ninguém precisa ser gênio da contabilidade para entender o truque: melhorar margem com receita estagnada ou em queda é o equivalente empresarial de emagrecer cortando o braço. A balança agradece, o paciente nem tanto. E o mercado, esse mesmo mercado que deveria precificar realidade, aplaude o ritual como se a empresa tivesse descoberto a roda.
O setor que a Moving iMage serve é, ele próprio, um cadáver caminhando que se recusa a deitar. Salas de cinema viraram subsídio cultural disfarçado de negócio, sustentadas por blockbusters cada vez mais raros, por incentivos fiscais municipais, por shoppings que precisam de âncora para justificar aluguel. Quem fornece tela, projetor e sistema de som para esse arranjo está vendendo pá numa corrida do ouro que acabou faz uma década. Margem melhor aqui não é virtude empresarial; é o fornecedor da funerária se gabando de ter conseguido desconto no caixão.
E aqui mora a coisa interessante que ninguém quer dizer em voz alta. Pequenas empresas listadas, dessas que valem menos que um apartamento em Manhattan, existem em uma zona crepuscular onde a transcrição de resultados serve menos para informar acionistas e mais para justificar a existência do circo todo. Auditores, escritórios de advocacia especializados em compliance, consultorias de investor relations, plataformas de divulgação, toda uma indústria parasitária vive da obrigação regulatória de uma empresa de quatro pessoas e meia ter que se comportar como General Electric. Siga o dinheiro: a margem que melhorou na Moving iMage provavelmente foi devorada pela conta dos profissionais necessários para anunciar que ela melhorou.
O leitor menos atento vai dizer que estou sendo cruel com uma empresinha que está só tentando sobreviver. Não estou. Estou sendo cruel com o sistema que transforma sobrevivência em performance, que obriga negócios pequenos a vestir terno de gigante, que cria a ilusão de que existe mercado de capitais democrático quando o que existe é uma pirâmide de custos regulatórios que esmaga embaixo e privilegia em cima. A empresa em si pode ser honesta, competente, bem intencionada. O problema é o palco onde ela é forçada a dançar.
Tem ainda o detalhe filosófico de fundo. Quando a notícia econômica relevante do dia é uma microempresa do setor de equipamentos audiovisuais melhorando margem por corte de custo, você está olhando para um país, para uma economia, para uma civilização que perdeu o instinto do que é riqueza de verdade. Riqueza se cria produzindo coisa nova, atendendo necessidade que não estava sendo atendida, fazendo o que ninguém mais faz. Riqueza não se cria espremendo dois pontos percentuais de margem de uma operação encolhendo. Mas como o jornalismo econômico contemporâneo precisa preencher página, e como o índice precisa subir, e como o algoritmo precisa de manchete, transformamos contração disfarçada em boa notícia. Todo mundo finge junto.
A verdade nua é que uma economia saudável não precisaria celebrar isto. Uma economia saudável teria a Moving iMage virando outra coisa, sendo absorvida, quebrando e renascendo, ou simplesmente desaparecendo sem cerimônia para liberar capital, talento e atenção para empreitadas mais úteis. O capitalismo de verdade é cruel com o obsoleto porque é generoso com o futuro. O que temos hoje é o oposto: gentileza com o cadáver, hostilidade com o nascituro. Margem melhor no trimestre, civilização pior no século.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.