A ACS, gigante espanhola da construção controlada pela família Florentino Pérez, divulgou balanço do primeiro trimestre de 2026 com crescimento robusto, margens em expansão e carteira de obras inflada. Os analistas de banco soltaram foguete, a ação subiu, e o noticiário tratou o evento como vitória do bom e velho capitalismo industrial. Olha, é preciso ter coragem ou má-fé para chamar isso de capitalismo. Uma empresa que vive de licitação pública, de PPP turbinada por garantia soberana e de obra financiada por banco central que imprime euro como se fosse confete, não está competindo no mercado, está mamando na teta estatal com sotaque castelhano.

Quer dizer, a contabilidade da festa é simples e ninguém quer ler. Os Estados europeus estão endividados acima de cento e dez por cento do PIB em média, a União Europeia despejou centenas de bilhões em planos de recuperação batizados com nomes bonitos, e o Banco Central Europeu manteve juros artificialmente comprimidos por uma década inteira, criando o ambiente perfeito para que conglomerados gigantes captem barato, comprem concorrentes, ganhem licitações onde só os grandes conseguem entrar, e depois apareçam em telejornal como exemplo de eficiência. Eficiência em quê, exatamente? Em capturar subsídio? Em transformar imposto alheio em dividendo próprio?

Me diz uma coisa, qual o setor em que a ACS realmente cresce. Infraestrutura, energia, concessões, serviços para governo. Tudo aquilo que depende de carimbo, de licença, de contrato com ente público, de regulação favorável e de relacionamento com ministro. O lucro aparece no relatório trimestral, mas o custo aparece no contracheque do trabalhador espanhol, italiano, alemão, que vê o euro encolher no supermercado enquanto o conselho de administração brinda em Madri. A janela quebrada nunca enriquece ninguém de verdade, ela apenas transfere recursos de quem produz para quem está bem posicionado na fila do guichê.

E tem o capítulo brasileiro da novela, porque a ACS opera por aqui através da CCR e de participações em concessões rodoviárias e aeroportuárias. Toda vez que pedágio sobe acima da inflação, toda vez que aeroporto cobra tarifa que faria corar um cartel medieval, toda vez que contrato é prorrogado sem licitação nova com a desculpa do reequilíbrio econômico-financeiro, parte do dinheiro do motorista brasileiro está virando dividendo em conta espanhola. Isso é livre mercado? Isso é o sujeito comum aceitando, porque ninguém explicou para ele que existe diferença entre capitalismo de verdade e arranjo de balcão com fachada de bolsa de valores.

O que se vê é o release otimista, o gráfico verde, o CEO sorrindo na transcrição da teleconferência. O que não se vê é a fila de pequenas construtoras quebradas porque não conseguem competir com gigante que tem custo de capital subsidiado, a poupança do aposentado europeu evaporando na inflação que financiou o boom, e a próxima geração herdando dívida pública impagável para que a obra do trem-bala fique pronta a tempo da próxima eleição. Lucro recorde em ano de juros suprimidos e gasto público recorde não é mérito, é sintoma. Sintoma da doença que está corroendo o ocidente há cinquenta anos e que nenhum colunista de jornal grande tem coragem de nomear.

A pergunta que fica, e que o investidor sério deveria fazer antes de comprar a ação animado com o balanço, é simples. O que acontece com a ACS no dia em que o Banco Central Europeu for forçado a sustentar juro real positivo de verdade, no dia em que os Estados europeus não conseguirem mais rolar a dívida sem default explícito ou implícito via inflação galopante, no dia em que o eleitor cansar de pagar pedágio para financiar palácio de governo. Esse dia chega, sempre chega. E quando chegar, o balanço do primeiro trimestre de 2026 vai parecer aquela última taça de champanhe servida no Titanic, brilhante, espumante e completamente irrelevante diante do iceberg que ninguém quis enxergar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.