A Baidu apresentou o balanço do primeiro trimestre de 2026 com a pompa de quem descobriu a roda, destacando o crescimento dos negócios de inteligência artificial como se fosse mérito puramente empresarial. Quer dizer, mérito empresarial num país onde a empresa que desagrada o secretariado some do mapa numa noite de quarta-feira, com CEO incluído. O número aparece bonito na tela da Bloomberg, o analista de banco europeu copia o release, e ninguém pergunta a coisa óbvia: de quem é, afinal, esse crescimento?
Olha, toda vez que uma big tech chinesa relata expansão em IA, está relatando, na verdade, a fatia que o Partido Comunista lhe concedeu naquele trimestre específico. A licença para operar modelos de linguagem em Pequim é distribuída a dedo, os dados de treinamento passam por curadoria política antes de existirem, e o algoritmo aprende primeiro a não ofender Xi Jinping e depois, se sobrar tempo, a responder o usuário. Chamar isso de competição tecnológica é como chamar de gastronomia o cardápio único do refeitório do quartel.
Me diz uma coisa: por que ninguém soma quanto custou ao contribuinte chinês esse balanço aplaudido? Subsídio direto via fundos estatais de semicondutores, energia subsidiada para os data centers, crédito barato dos bancos públicos que ninguém precisa devolver muito sério, proteção de mercado contra o concorrente americano que foi convidado a se retirar via tarifa, regulação ou simples desaparecimento. O lucro reportado é a parte visível. A conta invisível foi paga pela poupança forçada de seiscentos milhões de chineses que ganham menos de quatrocentos dólares por mês.
O paralelo histórico é embaraçoso para quem ainda acredita em conto de carochinha sobre capitalismo de Estado eficiente. A União Soviética dos anos sessenta também publicava balanços espetaculares de produtividade industrial, satélites na órbita, ginastas no pódio, e durante duas décadas convenceu metade dos professores universitários ocidentais de que havia descoberto o atalho. Bastou uma geração para o atalho virar abismo. Concentrar a decisão econômica em poucas mãos não produz inovação sustentável, produz vitrine. E vitrine quebra quando o turista para de pagar ingresso.
O investidor americano que compra ADR de Baidu acha que está apostando em inovação. Está, na verdade, financiando uma estrutura na qual ele não tem direito de propriedade real, não tem direito de voto significativo, não tem acesso aos livros verdadeiros e não tem como executar nada num tribunal de Xangai se o ativo evaporar. Pagar para ser sócio minoritário do Politburo é uma escolha estética; chamar isso de investimento racional é abuso de linguagem. Existem casinos em Macau com melhor governança corporativa, e pelo menos lá o drinque vem por conta da casa.
O crescimento de IA da Baidu existe, e é exatamente do tamanho que o Partido permite que exista. Nem um yuan a mais, nem um modelo a menos. Toda economia que confunde permissão com mérito acaba descobrindo, sempre tarde demais, que o que foi concedido pelo poder pode ser retomado pelo poder, e que aplaudir gigantes de cristal é o passatempo favorito de quem nunca viu o chão depois da queda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.