A Nissan fechou o quarto trimestre de 2025 com prejuízo, e a ação subiu. Leia de novo, devagar, porque a frase resume o estado mental do capitalismo financeiro contemporâneo melhor do que mil teses de doutorado. A montadora perdeu dinheiro, mas perdeu menos do que os analistas esperavam, e por isso os investidores comemoraram. É o equivalente corporativo de comemorar que o paciente entrou em coma com pressão estável. O fato concreto, o escândalo silencioso, é que a barra do sucesso empresarial foi rebaixada ao ponto em que sangrar de forma controlada virou tese de compra.

Vale lembrar como a Nissan chegou aqui. A empresa passou a última década numa novela folhetinesca de aliança com a Renault, prisão de executivo em Tóquio, fuga cinematográfica dentro de uma caixa de equipamento musical, troca de comando, planos de reestruturação que se sucederam como temporadas de série cancelada. Enquanto isso, a Toyota continuava vendendo carro híbrido para o mundo inteiro e a chinesa BYD montava fábrica em cada esquina do hemisfério sul. A Nissan apostou tarde no elétrico, apostou errado no mercado americano, e agora vende a narrativa de que está se arrumando. O mercado, generoso como sempre é com quem tem nome velho, finge acreditar.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais interessante. Quem ganha quando uma montadora tradicional sobrevive cambaleando? Os bancos credores, que rolam dívida e cobram comissão a cada refinanciamento. Os fundos que compraram a ação na baixa e agora vendem no repique. Os consultores de turnaround, espécie de agente funerário corporativo que cobra caro para administrar a agonia. Os governos do Japão e da França, sócios indiretos via fundos públicos e via Renault, que não podem deixar a empresa quebrar porque seria escândalo político. O trabalhador da linha de montagem em Sunderland ou em Aguascalientes, esse não está na conta. Ele entra na rubrica de reestruturação, vira número em apresentação de PowerPoint trimestral.

O ponto que ninguém quer dizer em voz alta é que o setor automotivo ocidental virou zumbi por desenho. Décadas de subsídio para elétrico, de cota de emissão, de imposto sobre combustível, de incentivo cruzado, de tarifa contra o concorrente chinês, criaram um ecossistema onde a montadora não vende carro para o consumidor, vende narrativa para o regulador. A Nissan está perdendo menos não porque ficou mais eficiente; está perdendo menos porque cortou modelo, demitiu gente, fechou fábrica e empacotou tudo isso num relatório que os analistas decidiram chamar de boa notícia. É o que se vê. O que não se vê é o engenheiro demitido, o fornecedor que faliu junto, o cidadão que pagou imposto para sustentar a transição forçada para o elétrico que o mercado livre não pediu.

Há uma sabedoria antiga, dessas que o pessoal sofisticado de Wall Street acha brega demais para repetir, que diz que empresa existe para servir o cliente e dar lucro ao dono. Quando o critério vira "perdeu menos do que se esperava", a empresa parou de ser empresa e virou ficha de pôquer numa mesa onde ninguém aposta o próprio dinheiro. O capitalismo de verdade, aquele em que o empreendedor arrisca o couro e o consumidor decide com a carteira, foi substituído por um arranjo em que ganhos são privatizados, perdas são socializadas via subsídio, e a métrica de sucesso é definida pelo analista que precisa justificar a recomendação de compra que fez no trimestre passado.

O recado fica para quem tem olho de ver. Quando uma ação sobe porque a empresa perdeu menos, não compre a ação, venda o sistema. A Nissan vai sobreviver, provavelmente, porque é grande demais para o Japão deixar quebrar. Mas a saúde dela é a saúde do doente que vive de soro, e a euforia do mercado é a alegria do parente que herdou a casa antes do velório. Capitalismo saudável é aquele em que empresa ruim quebra e empresa boa cresce. O que temos hoje é um zoológico de cadáveres bem maquiados, e cada trimestre uma nova festa porque o defunto piscou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.