A Open Lending acaba de divulgar resultados que confirmam o que qualquer pessoa com um mínimo de juízo já vinha alertando há trimestres. Receita em queda, originação de empréstimos murchando, e uma carteira inflada por anos de dinheiro fácil começando a mostrar as rachaduras que a propaganda corporativa tentou esconder. A empresa, que se especializou em viabilizar financiamento de automóveis para consumidores de crédito subprime, está descobrindo, junto com seus acionistas, que pessoas que não conseguiam pagar um carro a juros normais continuam não conseguindo pagar quando os juros sobem. Quem diria.
O caso é didático e merece ser lido com lupa, porque sintetiza a anatomia inteira de um ciclo manufaturado em laboratório monetário. Durante anos, com a torneira de liquidez aberta lá em Washington e taxa básica próxima de zero, criou-se um exército de empresas cujo modelo de negócio dependia exclusivamente da existência de juros artificialmente baixos. Não era inovação financeira, era arbitragem regulatória disfarçada de tecnologia. Bastou o custo do dinheiro voltar para algo parecido com o normal histórico para o castelo começar a ranger.
E aqui está a parte que ninguém quer dizer em voz alta. O subprime de automóveis nos Estados Unidos virou, silenciosamente, o novo subprime imobiliário, só que sem manchete de capa. Carteiras gigantescas de devedores que financiaram veículos a prazos absurdos, com prestações que comprometem metade do orçamento familiar, sustentadas por algoritmos que prometiam prever inadimplência melhor que a realidade. Quando o vento muda, descobre-se que o algoritmo era apenas uma planilha sofisticada chutando que a festa duraria para sempre.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. As mesmas instituições que originaram esses empréstimos venderam as carteiras embrulhadas em pacotes para fundos de pensão, seguradoras e investidores institucionais ávidos por rendimento numa era de juros suprimidos artificialmente. Privatizaram o lucro durante o boom e agora, com a maré baixando, começam o coro de sempre, pedindo flexibilização regulatória, alívio para o consumidor e, no limite, alguma forma criativa de socializar o prejuízo. O roteiro é tão velho que dá preguiça de descrever.
O que o resultado da Open Lending escancara, para quem quer enxergar, é que não existe mágica financeira sem contrapartida real. Crédito não é riqueza, é antecipação de produção futura, e quando se antecipa consumo demais, baseado em sinais de preço falsificados pela autoridade monetária, o que se está fazendo é destruir poupança disfarçada de prosperidade. O carro saiu da concessionária, o vendedor recebeu sua comissão, o executivo embolsou seu bônus, e fica a fatura para o trabalhador que não vai conseguir pagar e para o contribuinte que, na próxima rodada de pânico, será chamado a salvar o sistema.
A lição que dificilmente será aprendida é que crises como essa não são acidentes nem azar de mercado. São o resultado previsível, quase mecânico, de manipular o preço mais importante da economia, que é o juro, e fingir que isso não tem consequências. Toda vez que um burocrata de gravata decide que sabe melhor que milhões de pessoas qual deveria ser o custo do dinheiro, está plantando, com as próprias mãos, a falência futura de empresas como essa. A Open Lending não quebrou apesar do sistema, quebrou exatamente por causa dele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.