A notícia é curta e o jornalismo financeiro trata como se fosse revelação: a TRIG agendou a assembleia geral anual para 30 de junho. Pronto, está dado o recado. Só que assembleia de companhia aberta, no capitalismo realmente existente, raramente é o foro onde decisões são tomadas. É o foro onde decisões já tomadas são carimbadas. Quem acompanha o ritual sabe: a pauta chega pronta, os votos relevantes já estão costurados entre controladores, fundos de pensão, gestoras com participação ativa e, quando o assunto é sensível, alguma mesa de advogados que esteve acordada até as três da manhã da véspera.
Quer dizer, o espetáculo tem sua função. Ele cumpre a exigência legal, gera ata, legitima o que já estava legitimado nos bastidores, e permite que o minoritário sinta que foi ouvido mesmo quando foi apenas contado. O problema não está na assembleia em si, está na fantasia de que ela representa democracia acionária. Democracia acionária, no sentido estrito, só existe onde o poder de voto está disperso o bastante para que o debate importe, e isso é raríssimo. Onde há bloco de controle, há decisão prévia; onde há dispersão, há gestora coordenando voto; onde há gestora coordenando voto, há consultoria de proxy ditando recomendação. O minoritário individual, aquele sujeito que comprou mil ações e achou que ia influenciar alguma coisa, é o figurante que paga ingresso para assistir ao filme.
Olha, isso não é cinismo, é geometria do poder. E toda vez que o tema aparece travestido de governança corporativa, de transparência, de diálogo com stakeholders, convém seguir o dinheiro. Quem ganha com a pauta aprovada? Quem recebe bônus se o balanço fechar do jeito X? Quem tem contrato de assessoria com a companhia e, curiosamente, também tem assento no conselho consultivo de alguma holding parente? Nenhuma assembleia se explica apenas pelo que está no edital. Ela se explica pelo organograma dos interesses cruzados, pelos contratos de vesting, pelas debêntures emitidas no trimestre anterior, pelo refinanciamento que vence três meses depois da reunião. O edital é a fachada; a planta baixa está em outro lugar.
Me diz uma coisa, por que a imprensa especializada cobre esses anúncios como se fossem notícia? Porque precisa de conteúdo, porque o algoritmo exige volume, e porque é mais fácil reproduzir um fato formal do que investigar o fato real. A cobertura financeira brasileira, com honrosas exceções, virou agência de transcrição de fato relevante. Republica-se o comunicado, acrescenta-se um parágrafo de contexto morno, e se entrega ao leitor a sensação de que ele está informado. Está informado sobre a casca. O miolo segue opaco, e assim permanecerá até que algum processo judicial, alguma CVM curiosa ou algum whistleblower decida abrir a gaveta.
Há ainda o fator temporal que ninguém comenta. Marcar assembleia para o último dia útil de junho, fim do segundo trimestre, véspera de fechamento contábil semestral, não é escolha inocente. É timing. Aprovações feitas nessa janela entram no semestre seguinte já como decisão consolidada, influenciam projeções, afetam precificação de ações no segundo semestre, pavimentam distribuição de dividendos ou capitalizações. Datas em companhia aberta são instrumento de gestão de percepção tanto quanto de cumprimento legal. Quem entende o jogo lê a data antes de ler a pauta.
Resta ao acionista comum, aquele que não tem acesso aos corredores, fazer o que sempre coube ao cidadão diante das instituições que o ultrapassam: desconfiar por hábito, ler a letra miúda por disciplina, e lembrar que toda reunião formalmente democrática onde o resultado já é conhecido antes do voto é, na melhor das hipóteses, teatro caro. Na pior, é o álibi jurídico de decisões que não resistiriam à luz do dia. Entre carimbar ata e descobrir a verdade, o mercado quase sempre prefere a ata, porque a verdade não cabe no comunicado de fato relevante.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.