Olha que beleza. A Tristar Gold, mineradora júnior canadense com projeto encalhado no Paraguai há mais de uma década, conseguiu enfiar no mercado uma captação de C$ 10,4 milhões em "esforços restritos", aquele eufemismo elegante que a indústria financeira inventou para dizer "oferta para os amigos do rei". Investidor qualificado entra, varejo fica de fora, e quando a poeira baixar os papéis vão pingar no pregão pelas mãos de quem comprou barato e quer sair caro. Velho truque, roupa nova.
Quer dizer, ninguém aqui é contra empresa captar dinheiro. Mercado de capitais existe para isso, e mineradora de ouro precisa de caixa como peixe precisa de água, porque furar chão custa caro e descobrir veio que preste é loteria geológica. O problema não é a captação. O problema é o pano de fundo. A onda toda de financiamento para mineradoras de ouro nos últimos meses não é fruto de uma descoberta súbita de competência empresarial canadense. É consequência direta de um ouro que disparou porque os bancos centrais do mundo inteiro estão imprimindo dinheiro como se papel não tivesse custo, e os bancos centrais asiáticos estão acumulando metal amarelo nos cofres porque desconfiam, com razão, do dólar e de quem o emite.
Me diz uma coisa, por que será que governos imprimem moeda e ao mesmo tempo correm para comprar ouro? Porque eles sabem o que estão fazendo com o dinheiro dos outros e querem proteção para o próprio. É a forma mais sincera de confissão. A inflação não é fenômeno meteorológico, não cai do céu, não vem da guerra ou da pandemia ou do "choque de oferta" que os comentaristas adoram citar. A inflação é sempre, em todo tempo e em todo lugar, decisão política de financiar gastança com impressora. E quando a impressora rola, o ouro sobe, as mineradoras captam, e o pequeno poupador descobre, atônito, que o salário rendeu menos um ano depois mesmo com aumento.
Sigamos o dinheiro, porque é aí que mora a piada. Captação em esforço restrito significa que uma meia dúzia de fundos, family offices e investidores institucionais entraram numa janela fechada, com desconto, em condições que o trabalhador comum jamais teria acesso. Daqui a quatro meses, quando vencer o lock-up regulatório canadense, esses mesmos papéis estarão disponíveis para venda no mercado aberto. Se o ouro continuar subindo, lucro gordo. Se cair, distribuição organizada para o varejo desavisado que comprou a narrativa de "ouro é proteção" no topo. O mercado financeiro tem mil maneiras de transferir risco do esperto para o ingênuo, e a oferta restrita é uma das mais elegantes.
E note a ironia geopolítica do arranjo. Empresa canadense, projeto paraguaio, dinheiro provavelmente americano e europeu, valorização puxada pela política monetária frouxa de Washington e pela demanda dos bancos centrais de Pequim e Moscou. Todo mundo de mãos dadas no mesmo balé. O ouro virou termômetro de desconfiança política, e quem o produz colhe os frutos não da própria competência mas da incompetência alheia. Civilização avançada é aquela que confia na própria moeda. Quando o cidadão precisa correr para o metal que os faraós usavam, é porque algo muito antigo voltou a apodrecer no centro do sistema.
No fim das contas, a captação da Tristar é só mais um sintoma. O paciente, esse sim, está em estado grave, e o nome do paciente é a confiança nas moedas fiduciárias ocidentais. Quando uma mineradora júnior sem produção captar dez milhões num passe de mágica vira notícia banal, o leitor atento entende que a anomalia não está na empresa, está no chão monetário em que ela pisa. A festa vai durar enquanto durar a impressora. Depois, como sempre, sobra a ressaca, e a conta vem para quem nunca foi convidado para a oferta restrita.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.