Truist eleva o preço-alvo da Target para US$ 130 e a manchete corre como se fosse boa notícia para todo mundo. Não é. É boa notícia para quem está comprado em Target, para quem cobra fee por relatório de research e para o analista que precisa justificar o bônus de fim de ano. Para o consumidor americano que entra na loja e descobre que a mesma cesta que custava noventa dólares agora custa cento e quinze, a "solidez do trimestre" tem outro nome, e ele não é elogioso.

Olha, todo varejista que reporta lucro consistente em ambiente de crédito caro e poupança evaporada está fazendo uma de duas coisas, ou as duas ao mesmo tempo. Está repassando preço para um consumidor que apertou o cinto até furar o couro, ou está cortando estoque, gente e qualidade até o osso para entregar margem ao relatório trimestral. Em nenhum dos dois casos isto é prosperidade. É contabilidade. A diferença entre prosperidade e contabilidade é a diferença entre construir uma casa e pintar a fachada da casa do vizinho.

Me diz uma coisa, por que justamente agora, depois de anos de juros altos e crédito ao consumidor estourado, as grandes redes apresentam números considerados robustos? Porque o pequeno varejista, aquele da esquina, aquele que pagava aluguel, IPTU local, INSS de três funcionários e ainda tomava capital de giro a quinze por cento ao ano, esse já foi engolido. Sobrou o oligopólio. E oligopólio sempre reporta trimestre sólido, porque a alternativa para o consumidor é não comer. Chamar isto de eficiência empresarial é confundir a vitória do leão com a virtude do leão num zoológico onde só sobrou ele.

O analista do Truist faz seu trabalho, ninguém o acusa de má-fé. Ele lê o release, calcula múltiplo, projeta fluxo, carimba o alvo. Tudo dentro do protocolo. Só que o protocolo inteiro foi desenhado dentro de uma economia que há quinze anos vive de dinheiro impresso, juros artificialmente esticados ora para um lado ora para outro, e uma confusão sistemática entre lucro nominal e geração de riqueza real. Quando a régua é torta, todo tijolo medido com ela parece bem assentado, e a casa cai mesmo assim.

O que não se vê neste preço-alvo de cento e trinta dólares é o pequeno comerciante que fechou, o fornecedor estrangulado pelas cláusulas de prazo de pagamento de noventa dias, o empregado que aceita salário estagnado porque a alternativa é a fila, o cliente que troca carne por miúdo e chama isso de planejamento financeiro. A bolsa não enxerga isto porque a bolsa não tem olhos para o que não cabe em planilha. Mas a realidade, essa senhora teimosa, sempre cobra a conta no fim. Sempre.

O mercado de capitais virou um teatro onde os atores aplaudem a própria atuação enquanto o teatro pega fogo nos fundos. Trimestre sólido em moeda derretida é como elogiar a postura do passageiro num avião em queda livre. Compre a ação se quiser, é livre país, ainda. Só não chame isto de bom sinal para a economia, porque não é. É sinal de que o jogo está concentrando, o consumidor está exaurido, e quem sobrar no topo da pirâmide vai descobrir que pirâmide sem base é só uma pedra grande caindo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.