O Truist reduziu o preço-alvo da Insmed para US$ 185 e a notícia foi servida ao investidor brasileiro como se fosse meteorologia, fato bruto, número que caiu do céu. Quer dizer, o analista olhou para a bola de cristal das "pressões competitivas" e decretou que a ação vale menos. Pronto, está consumado. Repita-se a litania nas mesas de operação, comprem e vendam de acordo, e ninguém pergunte a coisa mais elementar do mundo, que é por que diabos o valor de uma empresa farmacêutica depende menos do remédio que ela fabrica e mais do humor de um comitê em Washington.
Porque é disso que se trata, e o pudor da imprensa financeira em dizer o óbvio só prova que o óbvio incomoda. A Insmed produz tratamentos para doenças pulmonares raras, área onde o pipeline regulatório do FDA decide, com canetadas, se uma molécula vale bilhões ou zero. "Risco competitivo" no jargão dos relatórios é o eufemismo gentil para algo bem mais sujo, que é a possibilidade de um concorrente conseguir antes a chancela burocrática, ou de a agência mudar a régua no meio do jogo, ou de algum lobista bem pago em Capitol Hill convencer o regulador a apertar o parafuso. Não é mercado. É um cassino onde a casa muda as regras a cada mão, e os analistas se especializaram em adivinhar o humor do crupiê.
Olha, é preciso ter coragem para chamar isso de capitalismo. O setor farmacêutico americano é hoje o exemplo mais didático de captura regulatória que a história econômica já produziu, com as grandes empresas financiando a própria agência que as fiscaliza, escrevendo as próprias regras de aprovação, e usando o aparato estatal como muralha para barrar entrantes menores. A Insmed, com seu nicho de doenças raras, navega num oceano onde a patente, o exclusivity period e o caminho regulatório foram desenhados por advogados das gigantes do setor décadas atrás. Quando o Truist fala em "competição", está falando de um campo de batalha onde as armas, as fronteiras e o juiz foram comprados na mesma loja.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Bancos como o Truist vivem da assessoria, da intermediação, do fluxo de ordens dessas mesmas farmacêuticas que cobrem. O analista que rebaixa hoje pode estar pavimentando a entrada do banco numa operação de captação amanhã, num spin-off depois, numa fusão no ano que vem. O preço-alvo não é uma verdade descoberta, é uma peça num tabuleiro maior, e o investidor de varejo que lê a manchete e ajusta sua carteira está participando de uma conversa cujas regras não lhe foram explicadas. Não existe almoço grátis nesse jantar, e quem não enxerga o cardápio é porque está sendo servido como prato.
O que não se vê, e raramente se discute, é o custo civilizacional de tudo isso. Cada bilhão de dólares que uma farmacêutica gasta correndo atrás de aprovação regulatória, atendendo exigências de papelada, financiando lobby defensivo, é um bilhão que não entra em pesquisa de novas moléculas. Cada paciente com doença pulmonar rara que espera anos por um medicamento aprovado é uma vítima invisível desse arranjo, vítima que nunca aparece nos relatórios do Truist porque estatística de pessoas mortas pela burocracia não move ação. A janela quebrada aqui é um cemitério, e os economistas de banco continuam celebrando os vidraceiros.
O leitor brasileiro pode achar que isso é problema de gringo, mas se engana redondamente. A Anvisa replica o pior do FDA com metade da competência, o BNDES escolhe vencedores no setor de saúde como quem joga dardos vendado, e o sistema de patentes daqui foi desenhado para proteger quem já está dentro, não para abrir espaço a quem quer entrar. A diferença é só de escala. O mecanismo é o mesmo, e a vítima também, esse personagem cinzento e silencioso que paga a conta sem nunca ter assinado o contrato, o cidadão comum que adoece, busca tratamento, descobre que a fila é eterna, e morre achando que o problema é falta de dinheiro público. Não é. É excesso de Estado fingindo que protege enquanto ordenha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.