A notícia chega com aquele verniz técnico que Wall Street adora: uma casa de análise reitera compra, aponta aceleração de receita, projeta múltiplos atraentes, e o papel sobe. Tudo muito limpo, muito profissional, muito "fundamentalista". Só que basta raspar dois milímetros da superfície para descobrir o que a CACI International realmente é: uma contratada do governo federal americano, especializada em inteligência, defesa cibernética e serviços para agências como Pentágono, comunidade de inteligência e Departamento de Segurança Interna. Ou seja, a tese de investimento em uma linha: aposte que o Estado vai continuar crescendo. É isso. É só isso.
E olha, é uma aposta excelente, porque é uma das poucas quase-certezas do universo econômico. Orçamento federal americano não encolhe desde que Eisenhower deixou a Casa Branca avisando sobre o complexo industrial-militar, e ninguém ouviu. Quando um analista diz que a CACI tem "crescimento acelerado", o que ele está dizendo, com outras palavras, é que o contribuinte americano está sendo esfolado em ritmo acelerado e uma fatia generosa dessa esfolação passa pelo caixa da empresa antes de virar relatório trimestral bonito. Não há genialidade empresarial aqui, não há produto revolucionário, não há consumidor escolhendo livremente. Há contrato público, edital desenhado sob medida, lobista trabalhando em Washington e margem garantida por décadas.
Quer dizer, o capitalismo de verdade é aquele em que o sujeito acorda cedo, arrisca capital próprio, enfrenta concorrência real, e se o cliente não gostar do produto, quebra. O que a CACI e toda a turma dos beltway bandits praticam é outra coisa, um arranjo bem mais confortável no qual o cliente é monopsonista, o dinheiro é tirado à força de quem não pode dizer não, e a concorrência se resume a cinco ou seis empresas que se revezam nos mesmos contratos há trinta anos. É o sonho dourado de qualquer empresário, claro, mas chamar isso de "livre mercado" é ofensa à língua portuguesa e à inglesa simultaneamente.
Me diz uma coisa: quem paga essa festa toda? Porque dinheiro não nasce em árvore no Capitólio. Cada dólar que entra no contrato da CACI saiu de algum lugar, e esse lugar é o bolso do contribuinte via imposto, ou o bolso de todo mundo via inflação quando o Tesouro emite dívida que o Federal Reserve monetiza. A tal "aceleração de crescimento" celebrada pela Truist é o reflexo direto do déficit americano batendo recorde atrás de recorde, da dívida pública escalando a território antes reservado a países em guerra mundial, e da impressora do Fed trabalhando em dois turnos para não deixar a festa acabar. O que se vê é a ação subindo. O que não se vê é o poder de compra do americano médio sendo corroído para financiar a margem dessa ação.
Há ainda o detalhe constrangedor que ninguém quer comentar: quando uma empresa depende estruturalmente do Estado para existir, ela deixa de ser empresa e vira extensão do Estado. As decisões estratégicas não são mais ditadas por consumidores, são ditadas por burocratas. A inovação não responde mais a demanda real, responde a edital. A cultura interna acaba mimetizando a da máquina pública, lenta, cheia de compliance, avessa a risco. É por isso que o Vale do Silício original, aquele que criou coisas de verdade, nasceu longe de Washington, e é por isso que a maior parte do dito setor de defesa não produz uma inovação disruptiva há décadas, apenas cobra caro por atualizações incrementais de sistemas que deveriam ter sido aposentados no governo Clinton.
A recomendação da Truist, portanto, está tecnicamente correta e moralmente reveladora. Correta porque sim, enquanto o Leviatã engordar, seus fornecedores engordam junto, e não há sinal algum de que Washington descobriu a virtude da austeridade. Reveladora porque escancara, em linguagem de relatório de corretora, que a aposta mais segura do mercado americano hoje não é tecnologia, não é energia, não é consumo, é simplesmente estar grudado na teta fiscal. Parabéns aos acionistas. Aos contribuintes, os pêsames de sempre.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.