Donald Trump pegou o megafone e avisou ao mundo que, se o regime iraniano não engolir o acordo até quarta-feira, manda os B-2 de novo. A frase saiu pronta, com o tom de quem acha que política externa é reality show e que tarifa de bomba é igual a tarifa de aço. O problema é que o mercado de petróleo não espera o noticiário da noite para reagir, ele já abriu em alta no segundo seguinte ao ultimato, e o brasileiro que vai abastecer o carro amanhã está, sem saber, financiando o teatro do Salão Oval.
Olha, o roteiro é velho, conhecido e sempre termina igual. Toda vez que um presidente americano descobre que tem uma porta-aviões parada no Golfo Pérsico, surge um ultimato com data marcada, uma reunião de gabinete vazada para a imprensa amiga e, no fim, um contrato bilionário para algum fabricante de munição que por coincidência financiou a campanha. Siga o dinheiro e você encontra os mesmos CNPJs de sempre, os mesmos lobistas circulando os mesmos corredores, e a mesma conta sendo despejada no contribuinte que nunca foi consultado sobre nada.
O detalhe que ninguém comenta é o efeito invisível. Quando o barril sobe três dólares por causa de uma bravata, o frete sobe, o supermercado sobe, a inflação americana sobe, o Federal Reserve segura juro alto por mais tempo, o dólar se valoriza, o real apanha, a gasolina no Brasil reajusta e o feijão da dona Maria em Pirapora fica mais caro. Tudo isso por causa de um tweet com prazo de validade. A guerra que se vê é o ataque aéreo; a guerra que não se vê é o empobrecimento silencioso de bilhões de pessoas que nunca colocaram o pé no Oriente Médio.
E me diz uma coisa, desde quando bombardear país com 90 milhões de habitantes resolveu alguma coisa que não fosse criar a próxima geração de jihadistas? O Iraque foi invadido em 2003 sob a promessa de armas de destruição em massa que nunca existiram, e o resultado foi o nascimento do Estado Islâmico. A Líbia foi pacificada por Obama e Hillary, e virou mercado aberto de escravos. O Afeganistão recebeu vinte anos de ocupação americana e devolveu Cabul ao Talibã em 72 horas. A pretensão de redesenhar o Oriente Médio com mísseis guiados é o mesmo erro do planejador central que acha que sabe alocar recursos melhor que milhões de agentes decidindo livremente; só que aqui o erro vem com cratera.
O regime dos aiatolás é uma teocracia abjeta, uma máquina de oprimir mulheres e enforcar dissidentes, e ninguém de bom senso defende aquilo. Mas existe uma diferença gigantesca entre desejar a queda de uma tirania e financiar uma aventura militar que historicamente fortalece justamente o regime que se diz combater. Sanção empobrece o povo e enriquece a Guarda Revolucionária, que controla o contrabando. Bombardeio cria mártires e une a população em torno do governo que ela odeia. A liberdade não chega de paraquedas dentro de uma bomba inteligente, ela brota quando o povo de uma nação decide, por conta própria, derrubar seus carcereiros.
O que se pede aqui não é pacifismo bobo de universidade, é prudência. Antes de derrubar a cerca, entenda por que ela está ali. Antes de declarar guerra com prazo de quarta-feira, calcule o custo verdadeiro, não o que aparece no orçamento do Pentágono, mas o que vai aparecer no preço do pão em Goiânia, no juro do financiamento em São Paulo e no caixão de um soldado de dezenove anos do interior do Texas. Trump foi eleito prometendo acabar com guerras eternas; está fazendo o oposto, e o aplauso de quem hoje bate palma vai virar fatura amanhã. Bomba é fácil de jogar, difícil é juntar os cacos depois.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.