O bloqueio entrou em vigor na tarde desta segunda-feira. Os Estados Unidos estão impedindo a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz, aquele corredor de quarenta quilômetros de largura por onde escoam aproximadamente vinte por cento do petróleo consumido no mundo inteiro. Donald Trump anunciou, com a sua habitual contenção, que qualquer navio iraniano que se aproxime da operação será "imediatamente eliminado", usando o mesmo sistema de abate que a Marinha aplica contra traficantes de droga. Rápido e brutal, nas palavras dele. O mercado não esperou análise mais refinada: o barril voltou à casa dos cem dólares antes que a tinta da declaração secasse.
Existe uma equação simples que os governos de todo o mundo fingem não conhecer, mas que qualquer comerciante de feira entende sem precisar de doutorado: quando você restringe a oferta de algo do qual todo mundo depende, o preço sobe para todo mundo, não apenas para o inimigo declarado. O Irã sofre com o bloqueio, isso é verdade. Mas a refinaria em Cingapura também sofre. O caminhoneiro no Brasil também sofre. A dona de casa na Europa que aquece a casa com gás também sofre. A coerção não tem passaporte; ela contamina o preço global e desce democraticamente sobre os ombros de quem menos pode carregar. O Estado que decreta o bloqueio arca com o custo político, em tese. O resto do mundo arca com o custo real, em dólares, silenciosamente.
Siga o dinheiro, que o caminho é curto. As produtoras de petróleo de xisto americano estavam operando na margem da lucratividade quando o barril rondava os setenta dólares. A cem dólares, a equação muda completamente. Campos que estavam fechados reabrem. Investimentos que estavam represados se liberam. O setor energético americano, que tanto reclamava da competição iraniana no mercado global, acorda esta segunda-feira com uma proteção tarifária da melhor qualidade: a gunboat. Não existe lobby mais eficiente que um porta-aviões. Pergunte-se quem financiou quem, rastreie as contribuições de campanha, olhe para os contratos de defesa já assinados, e o quadro estratégico fica menos heroico e mais familiar.
A narrativa oficial, naturalmente, apresenta o bloqueio como resposta necessária ao impasse diplomático, como o passo inevitável depois que as conversas em Islamabad fracassaram. O que essa narrativa omite, porque toda narrativa oficial omite o que lhe é inconveniente, é o custo de oportunidade: quais acordos eram possíveis, quais concessões foram recusadas, e quem se beneficia do fato de que não houve acordo. A guerra, quando acontece, sempre tem patrocinadores que prefere a contabilidade do conflito à contabilidade da paz. A paz não gera contratos de reposição de munição. A paz não justifica orçamento militar expandido. A paz é péssima para determinados balanços trimestrais.
Há um paralelo histórico que os entusiastas do bloqueio preferem não mencionar. Quando potências navais tentaram estrangular rotas marítimas para dobrar adversários, o resultado raramente foi a rendição rápida e limpa que os planejadores projetavam. O que costuma acontecer é escalada, improvisação, e uma sequência de "medidas de represália" que cada lado justifica como resposta ao que o outro fez primeiro. O Irã já declarou que o Estreito permanece aberto. A Guarda Revolucionária tem seus próprios cálculos. E o mundo, enquanto isso, paga o combustível mais caro, financia dois lados de uma disputa que não escolheu, e aguarda a próxima declaração na Truth Social.
O que está acontecendo em Ormuz não é um evento isolado de política externa. É um imposto. Um imposto não declarado, não votado por nenhum parlamento, não sujeito a nenhuma auditoria, cobrado de cada pessoa no planeta que consome qualquer produto que precise de energia para ser fabricado, transportado ou refrigerado, ou seja, de cada pessoa no planeta. Quando um Estado fecha um estreito e chama isso de segurança nacional, o que ele está fazendo, na prática, é redistribuir renda do consumidor global para setores específicos que se beneficiam da escassez induzida. A diferença entre esse imposto e os outros é que esse não vem com nota fiscal. Vem com bandeira e com discurso patriótico. E essa é exatamente a razão pela qual é o mais perigoso de todos.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.