Vinte por cento do petróleo mundial passa por um canal de trinta e três quilômetros de largura no ponto mais estreito. Trinta e três quilômetros. Qualquer manual de logística diria que depender disso é loucura; qualquer historiador diria que é inevitável. O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota marítima: é a jugular da economia global, e o anúncio de bloqueio naval feito por Washington nesta semana é, na prática, as mãos do Estado americano apertando essa jugular enquanto o mundo torce para que os dedos afrouxem antes de alguém desmaiar.
As negociações com o Irã não falharam por acidente. Falharam porque as duas partes queriam coisas fundamentalmente incompatíveis: Teerã quer sobreviver com seu programa nuclear intacto, e Washington quer que Teerã não exista como potência nuclear. Não há mediador que resolva essa equação. O que existia era um processo diplomático funcionando como válvula de escape, postergando a ruptura enquanto os dois lados fingiam negociar. Quando a válvula fechou, o vapor foi diretamente para o mercado de energia, e o mercado reagiu como sempre reage quando a incerteza política encontra oferta física limitada: com pânico nos preços.
Siga o dinheiro, porque ele sempre conta a história que os comunicados oficiais omitem. Um bloqueio no Estreito de Ormuz beneficia produtores que não dependem daquela rota: os campos do Permian Basin no Texas, os campos do Mar do Norte, a Noruega, eventualmente o Brasil pré-sal. Prejudica a Europa, que importa muito do Golfo Pérsico, prejudica a China, que depende pesadamente do Oriente Médio, e prejudica toda cadeia de manufatura global que precisa de energia barata para funcionar. Num único ato, Washington pressiona Teerã, encarece a energia do concorrente chinês e aquece a cotação do barril americano. Se parece estratégia, é porque provavelmente é. O problema é que estratégia geopolítica e crise humanitária energética frequentemente são a mesma coisa vista de ângulos diferentes.
A inflação que vai chegar dessa decisão não será chamada de inflação política. Será chamada de "pressão de custos", de "choque externo", de "efeito da crise no Oriente Médio", como se os preços tivessem subido por força própria, sem que nenhuma decisão humana específica os tivesse empurrado. Mas inflação não é fenômeno da natureza. Quando o Estado fecha uma passagem por onde flui um quinto do combustível do planeta, e os fretes sobem, e os insumos ficam mais caros, e a cadeia de produção global engripa, o aumento no preço do pão na padaria da esquina tem um endereço. Tem uma data. Tem um comunicado assinado. A conta que o consumidor vai pagar no supermercado nos próximos meses tem remetente, mesmo que ninguém escreva o nome no envelope.
Há um padrão histórico que nenhuma potência aprende com a experiência dos outros. Impérios que controlaram rotas comerciais descobriram invariavelmente que o custo de manutenção do bloqueio, mais o custo político das represálias, mais o custo econômico da instabilidade que se espalha como onda, supera com folga o ganho estratégico inicial. Napoleão tentou fechar a Europa ao comércio britânico com o Bloqueio Continental e o que conseguiu foi ruinar os aliados que precisava manter vivos, enquanto o contrabando florescia e a economia francesa sangrava. A força militar pode fechar um estreito. Não pode fechar a lei da oferta e da demanda, que vai encontrar rotas alternativas, preços alternativos e fornecedores alternativos, todos mais caros do que o arranjo que existia antes da decisão unilateral de um homem em Washington.
O irônico é que a crise energética que o bloqueio vai aprofundar vai gerar exatamente o tipo de demanda popular por "ação governamental" que justifica mais controle, mais subsídio, mais intervenção no mercado de energia. O Estado cria o problema, o problema legitima o Estado, o Estado expande. Foi assim com o choque do petróleo de 1973, foi assim com cada crise energética subsequente. O ciclo não é falha do sistema: é o sistema funcionando perfeitamente para quem está dentro dele. Para quem está do lado de fora pagando a gasolina, é outra história. Estreito fechado, bolso aberto, futuro incerto. Bem-vindo ao mundo onde a geopolítica decide o preço do seu gás de cozinha.
Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.