Domingo à tarde, no mesmo aplicativo onde um presidente americano anuncia tarifas, demite ministros e reescreve a política externa entre um golfe e outro, Donald Trump publicou um ataque ao Papa Leão XIV. O pontífice, primeiro americano na história a ocupar o trono de São Pedro, foi chamado de "fraco no combate ao crime" e de ter uma política externa "péssima". Trump acrescentou, com aquela insinuação conspiratória que é sua marca registrada, que o papa teria sido escolhido especificamente para "lidar com ele". Não houve sutileza. Raramente há.
O contexto importa. No começo de abril, quando o conflito com o Irã ainda fervia, Trump declarou que uma "civilização inteira morreria esta noite". O Papa respondeu publicamente que a afirmação era "verdadeiramente inaceitável". Aqui, antes de qualquer análise, vale registrar o que aconteceu de fato: o presidente dos Estados Unidos ameaçou aniquilar uma civilização, e o líder moral do catolicismo disse que isso não era aceitável. A narrativa que depois se instalou, de que o Papa estava sendo "político demais", inverte a ordem dos acontecimentos. Quem começou com política foi quem ameaçou destruição em massa.
Há também a questão da imigração, onde as críticas do Vaticano são antigas e consistentes. O Papa, como seus predecessores, defende que famílias não devem ser separadas na fronteira e que o processo migratório precisa respeitar a dignidade humana. Você pode discordar da solução proposta, pode argumentar que fronteiras abertas criam incentivos perversos, pode questionar o papel de uma instituição religiosa em política de Estado, e tudo isso seria uma discussão legítima. O que Trump fez foi diferente: ele não respondeu ao argumento, ele atacou quem o fez. Há uma diferença entre refutar e xingar, e ela diz muito sobre quem está com a razão.
O que torna este episódio particularmente revelador é a contradição interna que ele expõe. Trump governa com o apoio maciço de católicos e evangélicos americanos, invoca Deus em discursos, aparece em fotos com Bíblia na mão, e construiu boa parte de sua coalizão política sobre o argumento de que defende os valores cristãos contra a esquerda secular. E então, quando o chefe visível do cristianismo ocidental discorda dele, a resposta é tratá-lo como adversário político, com o mesmo vocabulário usado para desqualificar jornalistas, juízes e democratas. Isso não é contradição acidental. É revelação de caráter.
A história tem memória longa sobre esse tipo de conflito. O poder temporal e o poder espiritual brigaram muitas vezes ao longo dos séculos, e a conta costuma ser paga com juros pelo lado que mais precisa de legitimidade moral para governar. Reis e imperadores que tentaram dobrar a Igreja raramente saíram ilesos. Não porque a Igreja seja infalível em política, está longe disso, mas porque atacar uma instituição de dois mil anos que sobreviveu a impérios, pestes e guerras mundiais com um post de rede social, na segunda-feira de manhã, diz mais sobre a fragilidade de quem ataca do que sobre a fraqueza de quem é atacado.
No final das contas, o que Trump revelou não foi que o Papa é fraco. Foi que ele não tolera discordância de ninguém, nem quando esse alguém representa uma autoridade moral que seus próprios eleitores reconhecem como legítima. Um homem verdadeiramente seguro de suas posições responde ao argumento. Um homem que precisa destruir quem discorda revela, precisamente nessa necessidade, onde está a sua fraqueza.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.