Há momentos em que o poder, cansado de fingir, deixa cair a máscara. Trump comparando a Marinha americana a piratas, no meio de uma celebração das apreensões de navios iranianos, é um desses raros instantes de honestidade brutal num mundo que vive de eufemismos diplomáticos. O homem disse o que séculos de retórica jurídica tentaram esconder: a diferença entre o pirata privado e a marinha estatal é apenas a bandeira hasteada no mastro. Um age em nome próprio e é enforcado; o outro age em nome do Estado e ganha medalha.
O detalhe que ninguém quer comentar é a palavra "lucrativas". Apreensão lucrativa não é segurança nacional, é negócio. E quando vira negócio, deixa de ser exceção para virar incentivo. Quem confisca petróleo iraniano hoje porque "financia o terror" amanhã confisca qualquer carga sob qualquer pretexto, porque o cofre criou apetite. A história das nações marítimas é uma sequência de governos que descobriram o sabor do butim alheio e nunca mais conseguiram parar. Espanha, Inglaterra, Holanda, todos começaram patrocinando corsários "legítimos" contra inimigos "ilegítimos", até o sistema inteiro virar pilhagem institucionalizada.
Olha, a economia por trás disso é mais reveladora que a moral. Sanção não destrói riqueza, ela transfere riqueza. O barril iraniano apreendido não some, ele muda de dono. Sai do produtor original, atravessa o limbo jurídico do confisco e reaparece nos balanços americanos como receita extraordinária. Isso tem nome técnico desde Roma: espólio de guerra. A diferença é que Roma era honesta sobre o que fazia. Hoje se chama "enforcement de sanções" e vem com comunicado oficial em fonte serifada.
Me diz uma coisa, se um cartel mexicano apreendesse um caminhão concorrente alegando que o motorista financia atividade criminosa, alguém chamaria isso de política externa? E se o cartel ainda divulgasse o valor de mercado da carga numa entrevista coletiva, sorrindo? A indignação seria universal. Mas quando o cartel usa uniforme branco e tem porta-aviões, vira "projeção de poder", e a imprensa especializada explica que tudo se justifica pela estabilidade regional. A estabilidade, claro, é a do fluxo de caixa de quem apreende.
O problema mais profundo não é o Irã, não é Trump, não é a Marinha. É o precedente. Toda vez que um governo descobre que pode confiscar bens estrangeiros sob justificativa moral, abre porta que jamais fecha. Hoje é petróleo iraniano, ontem foram reservas russas, anteontem ativos venezuelanos, amanhã será qualquer país que ousar contrariar Washington em qualquer matéria. A propriedade privada, esse alicerce sobre o qual todo o comércio internacional foi construído, vira ficção condicionada à boa vontade do hegemon. E quando propriedade vira concessão revogável, o que resta de capitalismo é apenas a fachada.
O mais saboroso da declaração é que ela escancara aquilo que os manuais de relações internacionais passam quinhentas páginas tentando disfarçar. Não há ordem internacional baseada em regras, há ordem internacional baseada em quem tem canhão maior e advogado mais criativo. Pirata é categoria moral inventada pelos vencedores para criminalizar a concorrência. Quando o próprio presidente admite a equivalência, está fazendo um favor histórico à clareza, mesmo sem saber. Pena que ninguém vá aproveitar a lição.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.