A cena é boa demais para passar batido. O presidente americano resolveu lembrar publicamente ao chanceler alemão que a Alemanha tem problemas suficientes em Berlim para não precisar inventar opinião sobre o Irã, e o detalhe saboroso é que ele tem razão. A diplomacia europeia virou um teatro de moralismo barato onde governantes que não conseguem entregar energia confiável ao próprio povo, que destruíram parques nucleares funcionais por superstição verde, e que financiaram indiretamente a guerra na Ucrânia comprando gás russo via terceiros, agora aparecem de dedo em riste falando sobre como o Ocidente deve lidar com o programa nuclear iraniano. Quer dizer, o sujeito não consegue manter a fábrica da Volkswagen aberta e quer redesenhar o mapa do Oriente Médio.
Olha, há algo profundamente revelador nesse padrão. Toda vez que uma elite política perde o controle sobre o que é doméstico, sobre o que é tangível, sobre o que o eleitor sente no bolso e na conta de luz, ela compensa com gestos grandiloquentes em política externa. É mais fácil discursar sobre Teerã do que explicar por que a indústria química alemã está fugindo para o Texas. É mais confortável posar de moralista global do que admitir que a política energética dos últimos vinte anos foi uma sucessão de erros ideológicos pagos pelo contribuinte e pelo aposentado que agora aquece a sala com cobertor.
E quando se segue o dinheiro, a hipocrisia fica ainda mais transparente. Quem foi que durante anos sustentou o caixa do Kremlin via Nord Stream, fingindo que comércio era apaziguamento? Quem foi que se omitiu enquanto o Hezbollah, financiado e armado por Teerã, transformava o sul do Líbano em base de mísseis? Quem manda hoje delegações cordiais conversar com o regime dos aiatolás sob o pretexto de diplomacia, enquanto o mesmo regime patrocina ataques contra navios mercantes no Mar Vermelho? A Europa adora se vender como força moral do planeta, mas o cheque sempre acaba sendo emitido em nome de algum interesse muito mais prosaico, normalmente envolvendo subsídio industrial, contrato de gás ou cargo internacional para algum ex-ministro reciclado.
Existe ainda uma camada mais profunda nessa história, e tem a ver com a doença crônica do continente europeu, essa mania de achar que palavras bonitas substituem capacidade real. O continente que já dominou o mundo agora não consegue produzir um caça competitivo sem três países brigando sobre quem fura o parafuso, depende dos americanos para qualquer ação militar minimamente séria, e mesmo assim sai por aí distribuindo lições de geopolítica como se ainda fosse 1880. É a velha tragédia do funcionário público aposentado que se acha conselheiro do mundo, exceto que aqui o aposentado tem dívida pública nas alturas, demografia em colapso e uma classe dirigente que confunde regulamento com estratégia.
O recado americano, despido da grosseria habitual, é simples e legítimo. Quem quer voz de fato em assunto sério, paga o preço. Coloca soldado em campo, gasta o próprio sangue, assume o próprio risco, banca a própria defesa em vez de viver pendurado no guarda-chuva alheio há oitenta anos. Enquanto a Alemanha não atinge sequer dois por cento do PIB em defesa sem chorar, enquanto demonta usinas nucleares e queima carvão polonês, a opinião dela sobre como conter um regime que enriquece urânio a noventa por cento vale tanto quanto resenha de vinho feita por abstêmio. A liberdade, no plano internacional como no doméstico, pertence a quem produz, a quem se defende, a quem assume responsabilidade. O resto é palestra paga com dinheiro de imposto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.