A cena é deliciosa para quem gosta de ver a Europa engolir a própria pretensão. Trump veio a público recomendar ao chanceler alemão Friedrich Merz que largue o pito sobre o Irã e concentre a energia no incêndio que arde no quintal de casa, isto é, a guerra entre Rússia e Ucrânia. Tradução para quem entende de poder: a Alemanha, que durante duas décadas trocou autonomia energética por gás russo barato e moralismo de sermão dominical, agora descobre que precisa de Washington para lhe dizer onde olhar. Constrangedor não chega a ser palavra suficiente.

O detalhe que ninguém na imprensa de Berlim quer ver impresso é a mecânica financeira por trás do espetáculo. A Europa gastou centenas de bilhões de euros sustentando a guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que sabotou a própria base industrial fechando usinas nucleares em nome da virtude climática e empurrando o consumidor alemão para a tarifa mais cara do continente. Cada euro mandado para Kiev é um euro retirado, via imposto e inflação, do bolso do trabalhador de Stuttgart que já paga conta de luz como se morasse em hotel cinco estrelas. E ainda sobra fôlego para fazer discurso sobre Teerã. Notável capacidade pulmonar.

Há aqui um ponto que merece bisturi. Quando um chefe de Estado europeu se posiciona sobre o Irã, ele não está exercendo soberania, está terceirizando para a OTAN um problema que é primariamente americano e israelense, e cobrando pedágio moral por isso. É o velho truque do parasita ideológico: usar a estrutura militar dos outros para construir narrativa de relevância própria. Trump, que é muitas coisas mas burro de pedra não é, percebeu o jogo e devolveu a fatura na mesa. Cuide da sua guerra, herr Merz, antes de opinar sobre a alheia.

O subtexto é ainda mais saboroso. A Alemanha pós-Merkel virou caricatura de si mesma, um país que abandonou a indústria pesada, demonizou o automóvel a combustão, importou crise energética por decreto verde e agora se vê dependente da bondade americana para não congelar no inverno. A mesma elite política que ria de Trump em 2018, quando ele avisou em Davos que confiar gás na Rússia era suicídio estratégico, hoje pede colo. A história tem senso de humor, e ele costuma ser cruel com quem confunde virtude declarada com competência prática.

O recado mais amplo, para quem quiser ouvir, é sobre os limites da arrogância burocrática que tomou conta do velho continente. Bruxelas legisla cada parafuso, regula cada vírgula do mercado, fabrica diretiva sobre tampa de garrafa, mas não consegue fechar uma guerra na própria fronteira nem garantir energia para o próprio cidadão. É o paradoxo eterno do planejador central: quanto mais ele se mete no que não entende, menos consegue resolver o que de fato lhe compete. Defesa, fronteira, ordem pública, o básico, vira problema do americano. O resto, vira regulamento.

Sobre o Irã, valeria a Europa lembrar que toda intervenção produz a próxima intervenção, e que sanção econômica raramente derruba regime, mas sempre empobrece civil. Sobre a Ucrânia, valeria lembrar que guerra prolongada por dinheiro alheio é negócio ótimo para empreiteiro de armamento e péssimo para o ucraniano que morre no front e para o alemão que paga a conta. E sobre Trump, dá para gostar ou detestar, mas ele tem uma virtude rara entre líderes ocidentais contemporâneos: enxerga o jogo como ele é, não como o manual diplomático finge que ele deveria ser. Merz que tome nota.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.