O fato é simples e irresistível: o homem mais poderoso do mundo ocidental publicou numa rede social uma imagem gerada por máquina onde aparecia com a coroa de espinhos e a auréola de um mártir sagrado, e depois apagou. Não houve nota oficial. Não houve explicação. A imagem sumiu como sumem as inconveniências digitais, com um clique e a esperança de que ninguém tenha visto. Mas todo mundo viu.
Existe aí um problema que transcende a piada fácil sobre ego presidencial. A questão não é que Trump se comparou a Cristo, coisa que políticos de todas as latitudes fazem de formas variadas e sempre horríveis. A questão é que uma ferramenta de geração de imagens produziu aquilo em segundos, sem fricção, sem custo, sem o menor constrangimento técnico, e o resultado foi convincente o suficiente para que alguém na cadeia de decisão achasse razoável publicar. Isso é o que merece atenção. A tecnologia não tem juízo. Quem precisa ter juízo é o ser humano que a opera.
Durante séculos, produzir uma imagem sacra com o rosto de um governante exigia encomenda, pintor, tela, tempo e dinheiro. Era um ato deliberado, custoso, que carregava o peso da intenção. Bispos medievais mandavam retratar reis com nimbus dourado, e todo mundo sabia que aquilo era propaganda consciente de uma aliança entre trono e altar. Havia responsabilidade embutida no processo porque o processo era lento e caro. Hoje um adolescente no quarto faz o mesmo em quarenta segundos e posta antes de pensar. A velocidade eliminou a fricção que antes forçava alguma reflexão. Isso não é progresso, é imprudência embrulhada em conveniência.
O que torna o episódio tecnicamente relevante é o nível de realismo que os modelos de difusão atingiram. Não estamos mais no território do deepfake obviamente falso, daquelas montagens com pescoço torto e dentes multiplicados que circulavam há três anos e que qualquer leigo identificava imediatamente. Estamos num momento em que a imagem sintética compete de igual para igual com a fotografia real na percepção do observador comum. E se isso é verdade para um ex-presidente numa rede com bilhões de usuários, imagine o que está sendo feito com pessoas sem equipe de comunicação, sem assessores jurídicos, sem o poder de simplesmente deletar e fingir que não aconteceu.
A deleção em si é um ato político tão revelador quanto a publicação. Significa que alguém, em algum momento, considerou aquilo um erro. Não necessariamente um erro moral, mas um erro de cálculo. A imagem gerou reação, gerou manchete, gerou este texto que você está lendo agora, e a decisão foi recuar. É o comportamento racional de quem aprendeu a usar plataformas digitais como instrumento de poder, mas ainda não aprendeu a usar inteligência artificial com a mesma maturidade. A diferença entre os dois é que a plataforma você controla. A IA produz o que você pede, mas as consequências do que você pediu são inteiramente suas.
No fim, o episódio é uma fotografia do momento em que vivemos: ferramentas extraordinárias nas mãos de pessoas comuns, incluindo as muito poderosas, que ainda não desenvolveram os reflexos morais e intelectuais que a magnitude dessas ferramentas exige. Não é catastrofismo, é diagnóstico. A tecnologia não salvou Trump de si mesmo nesse episódio, e não vai salvar ninguém. A máquina faz o que manda quem a opera. O problema, quase sempre, é o operador.
Com informações do Tecmundo. A análise e opinião são do O Algoz.